
A Miss (2025), longa-metragem nacional de comédia dramática, distribuído pela Olhar Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 26 de fevereiro de 2026, com classificação indicativa 12 anos e 105 minutos de duração.
O roteirista e diretor Daniel Porto, apaixonado pelos concursos de Miss — que acompanha desde a infância ao lado da avó — faz sua estreia na direção de longas-metragens justamente em uma obra que homenageia e revisita esse universo.
A história se desenrola no Grajaú, na zona norte do Rio de Janeiro, e acompanha Iêda (Helga Nemetik), ex‑miss que, na juventude, acumulou títulos de beleza. Ela alimenta o desejo de ver a filha, Martha (Maitê Padilha), dar continuidade à tradição familiar — embora a jovem não tenha qualquer vocação para isso. Já Alan (Pedro David), o filho, demonstra talento e entusiasmo para conquistar faixa e coroa, especialmente com a ajuda do tio Atena (Alexandre Lino), tornando possível o sonho da mãe.
O filme conta sua história com um olhar lúdico e visando alcançar o público das comédias hollywoodianas da decáda passada, como “Tootsie” (1982) e “A Gaiola das Loucas” (1996), entre outras.
Os conflitos emergem dentro de casa e é nesse espaço íntimo — onde expectativas se transformam em pressão e o afeto, por vezes, se mistura ao controle — que o filme alcança seu auge narrativo. Seu grande mérito está na maneira como combina humor e, de certa forma, delicadeza para abordar questões como identidade, projeções familiares e a violência silenciosa das expectativas alheias.
A participação de Martha/Alan no concurso de beleza é fundamental para reorganizar as dinâmicas entre a mãe, os filhos e o “chantageado” tio Athena (que finge ser gay, mesmo não sendo), figura que funciona como ponte entre as gerações (principalmente por que mesmo não sendo parente de sangue, tem uma visão muito completa da relação familiar).
A força do filme está nos diálogos, e a relação entre os irmãos surge como um dos elementos mais bem trabalhados da narrativa. As trocas são cheias de boas sacadas, construídas com naturalidade e sempre atravessadas por uma sensação de cumplicidade. Um exemplo é o momento em que Alan, em meio a uma conversa despretensiosa com a irmã, deixa escapar que pretende adotar Mina como seu nome drag.
A atriz Helga Nemetik entrega a Iêda uma personalidade difícil de engolir, marcada por uma combinação desconfortável de afeto, frustração e uma cegueira emocional que torna cada aparição imprevisível. Ela ama, mas ama do único jeito que conhece — repetindo um modelo que jamais foi colocado em xeque. O vício constante em cigarro reforça esse traço autodestrutivo da personagem, que parece presa a hábitos e crenças que a corroem há anos.
Um adendo importante a ser feito é em relação aos concursos de beleza e ao questionamento de Alan em relaçao à própria sexualidade e identidade, que são utilizados de forma secundáia na trama. Aos espectadores desavisados, não esperem profundidade nesses assuntos.
Uma participação especial no elenco, que merece ser mencionada, diz respeito a Ava Simões, Miss Brasil Gay e Miss Trans Universo, que interpreta ela mesma como jurada no Miss Rio de Janeiro.
Vale destacar ainda, a participação de Ellen de Lima — a última cantora de rádio ainda viva no Brasil e intérprete da canção original das Misses. Para o filme, ela gravou uma nova versão especialmente criada para a produção, cuja trilha sonora se desdobra em variações desse tema sob a direção musical de Alexandre Elias.
Nota‑se que Daniel Porto, admirador declarado de Pedro Almodóvar, buscou reproduzir a combinação de cores vibrantes em contraste com dramas intensos que é marca registrada do cineasta espanhol. Somando a isso a influência da paleta de Wes Anderson, o diretor quis que a direção de arte, os figurinos e as locações não fossem apenas elementos decorativos, mas que ajudassem a narrar essa história, reforçando através da estética do filme a ideia de que riso e choro podem caminhar lado a lado.
Em geral, o filme se mantém coerente com sua proposta. Trata-se de uma produção assumidamente mais simples, interessada em entreter ao invés de debater temas mais adultos e polêmicos.










