
A Mensageira (El Mensaje AKA The Message, 2025), longa-metragem de drama, coprodução Argentina, Espanha e Uruguai, distribuído pela Filmes do Estação, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 19 de março de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 91 minutos de duração.
Um senhor aparece carregando uma tartaruga como quem leva um diamante bruto até uma van sem identificação — sempre um ótimo sinal — na esperança de que uma garotinha consiga “conversar” com o bicho em troca de 12.000 pesos argentinos, o que hoje compra, basicamente, um sanduíche e meio na Europa. Já na cena de abertura do novo longa de Iván Fund, “A Mensagem”, percebemos que estamos entrando numa história elegante, melancólica e ligeiramente deprimente sobre como as crianças perdem a inocência… e como os adultos fazem malabarismos emocionais para fingir que ainda têm alguma.
No interior da Argentina, a pequena Anika (Anika Bootz) supostamente consegue se comunicar com animais — ou pelo menos é isso que os boatos dizem, e boatos, como sabemos, são a base de 80% dos negócios duvidosos do mundo. Seus “quase pais”, Myriam (Mara Bestelli), porta-voz oficial da enganação, e Roger (Marcelo Subiotto), CEO da trambicagem, parecem muito mais interessados em vender Anika como “encantadora de animais” do que em cuidar da menina de olhos arregalados. Eles vivem numa van adaptada, onde Myriam grava mensagens de voz para clientes desesperados, fingindo canalizar a alma de pets falecidos, enquanto Anika faz o que crianças fazem: brinca, dorme e tenta não perceber que está sendo usada como ferramenta mística de marketing.
Tecnicamente, eles são golpistas de baixo orçamento explorando gente enlutada. Mas, para os clientes, são praticamente santos. E o filme mantém as duas coisas verdadeiras ao mesmo tempo.
A primeira metade desliza com facilidade, sustentada pela dinâmica esquisita — porém fascinante — entre os três. A câmera de Gustavo Schiaffino vive grudada no rosto de Anika, revelando seu carinho pelos guardiões e, ao mesmo tempo, aquele olhar de “eu não pedi nada disso”. À noite, a tela mergulha em escuridão quase total, refletindo o isolamento emocional e geográfico desse trio que vaga pelo país atrás de clientes crédulos.
Fund constrói um “road movie” nada convencional: não é sobre a estrada, mas sobre os encontros — alguns belíssimos, outros desconfortáveis, todos importantes para Anika. A delicadeza da narrativa revela a obsessão do diretor com o vínculo emocional entre humanos e seus bichos, esse desejo universal de ser compreendido por alguém que não fala a nossa língua, mas entende tudo.
Se Anika realmente fala com animais? Irrelevante. Talvez ela mesma não saiba. O que importa são os pequenos momentos de encantamento infantil — ou a falta deles. Como quando ela coloca um dente de leite debaixo do travesseiro e encontra o mesmo dente lá no dia seguinte, um lembrete sutil de que a magia está indo embora.
Os momentos com gatos, cachorros e até uma capivara solitária irão derreter muitos corações céticos. Porque, no fim, os animais são o último fio que nos conecta à capacidade de sentir alegria pura num mundo que insiste em dizer que isso é coisa de gente fraca.















