
A Luz (Das Licht AKA The Light, 2025), longa-metragem dramático alemão, distribuído pela Imovision, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, em 14 de agosto de 2025, tendo sido exibido, anteriormente, durante o 1º Festival de Cinema Europeu Imovision, com classificação indicativa 14 anos e 165 minutos de duração.
O mais recente filme de Tom Tykwer se apresenta como uma obra promissora, repleta de reflexões instigantes e personagens intensamente construídos. Embora sua execução não alcance plenamente a sofisticação de suas ideias, a narrativa se mantém envolvente, explorando com precisão os limites da experimentação antes de perder a atenção do público.
Com Lars Eidinger, Nicolette Krebitz e Tala Al Deen em papéis de grande complexidade, o filme se desdobra como uma análise madura das dinâmicas familiares, ao mesmo tempo em que aborda, de maneira mais fragmentada, questões como imigração e discriminação na sociedade atual. A fusão entre drama pessoal e crítica social confere à obra um caráter multifacetado, tornando-a uma experiência cinematográfica instigante, mesmo que imperfeita.
No coração do filme, está Farrah, uma imigrante síria que, após um trágico (e ironicamente cômico) acidente envolvendo a antiga governanta, assume o cargo de faxineira para uma família alemã em Berlim. A partir desse ponto, o filme se dedica a explorar meticulosamente o cotidiano dos membros da família Engels, desde os pais socialmente engajados, Tim e Milena, até seus filhos, Jon e Frieda, cujas personalidades oscilam entre o retraimento e a imprevisibilidade.
Com uma abordagem detalhista, o longa desconstrói as dinâmicas familiares por meio de confrontos pausados e diálogos densos, permitindo ao público mergulhar na psique de cada personagem. No entanto, o filme tropeça ao utilizar Farrah como um recurso narrativo para desviar o foco da trama principal, introduzindo reflexões sobre imigração e multiculturalismo de maneira excessivamente didática e pouco orgânica. Essa escolha enfraquece o discurso, tornando algumas de suas mensagens menos impactantes do que poderiam ser.
Embora aborde temas de grande relevância, sua execução nem sempre faz jus à profundidade que poderia alcançar. Em uma ironia curiosa, considerando seu foco na identidade como eixo central, o filme parece constantemente indeciso sobre sua própria direção. Ele oscila entre comédia de humor negro, números musicais vibrantes e confrontos melodramáticos que, por sua inconsistência, tornam-se difíceis de levar a sério.
Ao invés de enriquecer a trama com essa diversidade estética, o filme se perde em sua longa duração, sem se comprometer plenamente com nenhum de seus estilos conflitantes. Em um momento ousado, até incorpora uma breve sequência animada — um recurso que, sem dúvida, chama a atenção. No entanto, ao olhar para trás, a escolha do diretor de não integrar esses experimentos formais de maneira coesa acaba deixando-os deslocados dentro da obra.
Um dos pontos em que o filme realmente se destaca é a força de suas atuações principais. Cada membro do elenco imprime algo único em seu personagem, diferenciando-se dos demais. Embora os atores mais jovens tragam uma energia rebelde que nem sempre se alinha ao tom melodramático dos adultos, eles ainda conseguem manter a longa duração do filme dinâmica e envolvente. Ao longo de quase três horas, o diretor e seu elenco criam uma conexão genuína com os personagens, sem recorrer a uma abordagem excessivamente sentimental. Todos são figuras imperfeitas, e são justamente essas falhas que os tornam autênticos, impedindo a previsibilidade de um drama familiar convencional.
Além de seu estilo polarizador e da inclinação ao drama, o aspecto mais debatido do filme é seu desfecho ousado e inesperado. Infelizmente, essa virada narrativa deixa o público incerto sobre qual mensagem Tykwer realmente deseja transmitir. Ao tentar surpreender o espectador e revelar a “verdade” da história, o filme acaba evidenciando que sua primeira metade tem pouca relevância para o restante da trama. A conclusão mergulha no surrealismo, abandonando o realismo que sustentava a narrativa até então e optando por um comentário mais abstrato e menos direto sobre a imigração na Alemanha.
Apesar da profundidade de seu subtexto, o longa não parece justificar plenamente essa mudança radical no final. A impressão que fica é a de um embate entre diferentes visões artísticas dentro do filme, todas competindo por espaço e, no processo, sufocando umas às outras. Essa ambição estética, compromete a coesão da obra, tornando-a uma experiência cinematográfica tão fascinante quanto frustrante.
Em termos técnicos, há pouco a questionar. Tom Tykwer, um cineasta experiente, demonstra total domínio sobre a composição das cenas, sempre buscando o máximo de envolvimento do público. Há um dinamismo evidente na maneira como seus personagens se movem pelo quadro, com a câmera os acompanhando de perto enquanto atravessam os espaços claustrofóbicos do apartamento em Berlim. Esse recurso visual reforça a intimidade da narrativa e torna ainda mais críveis suas reflexões sobre amor e comunicação.
A direção, sem dúvida, se mantém como um dos pilares da obra, iluminando um projeto que, de outra forma, poderia parecer disperso. Mesmo quando a história vacila em sua intenção ou exagera em experimentos formais, o aspecto artístico do filme continua sendo digno de admiração.
No entanto, “A Luz” acaba sendo um exemplo de potencial mal direcionado. O que começa como uma investigação instigante sobre as conexões inesperadas da vida se transforma em algo enigmático e pouco estruturado. O roteiro de Tykwer se perde ao atribuir relevância equivocada a certos elementos da história, enquanto a revelação do ato final, longe de ser impactante, gera frustração. Se as duas horas anteriores não tivessem se empenhado em moldar uma narrativa completamente diferente, o desfecho poderia ter sido genuinamente comovente.
Em resumo, embora as atuações sejam dignas de reconhecimento e Tykwer permaneça um cineasta tecnicamente impecável, “A Luz” carrega uma dualidade que compromete sua força. Existe um filme mais coeso e emocionalmente potente escondido sob a superfície da obra, mas ele surge apenas como um recurso tardio, quando deveria ter sido o alicerce desde o início.














