A História do Som (por Peter P. Douglas)

A História do Som (The History Of Sound, 2025), longa-metragem estadunidense de drama, distribuído pela Imagem Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 26 de fevereiro de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 128 minutos de duração.

As notas dissonantes são raras no comovente e melancólico “A História do Som”, dirigido por Oliver Hermanus e escrito por Ben Shattuck a partir de seu próprio conto sobre homens apaixonados, separados, reunidos e novamente separados. Contudo, para um romance queer estrelado por dois dos atores mais cobiçados do momento — Paul Mescal e Josh O’Connor — o filme quase parece fazer questão de desafiar qualquer expectativa que você possa ter sobre “como um romance gay deve ser”. Nada de grandes gestos ou de tempestades emocionais. Aqui, o drama é mais silencioso, mais contido… e com um ritmo mais disposto a testar sua paciência.

No longa, acompanhamos Lionel (Paul Mescal) da infância à velhice, sempre orbitando seu relacionamento com David (Josh O’Connor). Os dois estudantes de música do Conservatório de Boston se conhecem em 1917, passam alguns encontros tortuosamente breves ao longo dos anos e caminham juntos até o final melancólico do filme. Durante décadas observamos Lionel, tentando seguir em frente, tentando amar outras pessoas, tentando fingir que David não é o fantasma permanente em sua vida.

A obra abre mão de qualquer explosão emocional grandiosa. A relação entre Lionel e David é construída em olhares, silêncios e diálogos que parecem sempre prestes a dizer algo importante… mas nunca dizem. É quase um esporte olímpico de contenção emocional.

A viagem dos dois pelo interior do Maine para coletar canções tradicionais é o ponto alto do relacionamento — noites na tenda, abraços tímidos, promessas sussurradas. A despedida na estação de trem com David tremendo, mas sem expor seus sentimentos em público, é uma tortura.

A parte final, então, é outro soco emocional. Lionel encontra Belle (Hadley Robinson), ex-esposa de David, e o diálogo entre eles é devastador. Há um cigarro aceso em uma cozinha vazia que resume perfeitamente o estilo do filme: lento, paciente, contemplativo… e doloroso.

Quando Lionel, já idoso (Chris Cooper), diz que “nunca foi tão feliz do que quando colecionava canções”, o que ele realmente quer dizer é: “nunca fui tão feliz do que quando estava com David”. Ele só não consegue admitir isso — nem para si mesmo. O filme nunca diz explicitamente “esses homens são gays”, nem tenta dramatizar a repressão da época com grandes discursos. Hermanus prefere sugerir, insinuar, deixar você pescando subtexto como quem tenta ouvir algo vindo do apartamento do vizinho. E, curiosamente, funciona.

As cenas de amor entre Lionel e David são discretas, porque este filme não está aqui para te dar cenas de sexo, apenas alusões poéticas. Aliás, a única cena que realmente se aproxima de “sexo” envolve Lionel e uma sua namorada (Emma Canning).

O longa tem problemas de ritmo e desvios que parecem ter sido colocados ali só para testar a paciência do público — verdadeiros passeios turísticos rumo a lugar nenhum. E embora ele se estenda por um mapa invejável — Itália, Inglaterra, Maine, Kentucky e sabe-se lá mais o quê — é o relacionamento dos protagonistas que nos mantém ancorados, assim como mantém Lionel emocionalmente preso. Mas vamos ser honestos: este é um filme muito lento, e muita gente vai achá-lo desinteressante graças à ocasional inacessibilidade dos personagens e à música folk que simplesmente se recusa a tirar férias.

Há muito “som” no filme, transformando-o, praticamente, em um musical que poderia facilmente migrar para o teatro. Mas, se você simplesmente se render ao banjo (e você vai ter que se render, porque ele não vai parar), acaba sendo envolvido pela trilha e até desenvolve uma apreciação pela orquestração que os personagens tanto veneram.

E, claro, que o filme funciona como uma vitrine brilhante para Paul Mescal. O irlandês aproveita a chance para mostrar um lado mais contido, mais silencioso, mais “sou um artista sério, veja como sofro em silêncio”. Bem diferente do gladiador musculoso que ele interpretou em sua estreia em grandes franquias.

Josh O’Connor, por sua vez, tem menos espaço para brilhar, mas isso porque vemos David apenas pelos olhos de Lionel — sempre distante, sempre lembrado, sempre idealizado. Ainda assim, O’Connor entrega um personagem cheio de tristeza profunda (marcada pela experiência traumática na Primeira Guerra Mundial), charme e doçura.

Em resumo, “A História do Som” é recomendado só para um público muito específico. O tipo de espectador que realmente quer mergulhar no período histórico, apreciar a abordagem musical e abraçar todos os temas contemplativos do filme. E, claro, alguém que esteja ciente de que o impacto emocional não vem rápido: ele só aparece lá no final.

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