A Bruxa (por Peter P. Douglas)

Tenho quase certeza de que “A Bruxa” (The Witch, 2015) sofre, desde seu lançamento, de um caso grave de hype de Festival — aquela doença típica em que um filme pequeno, exibido para um público empolgado por estar respirando o mesmo ar que celebridades indie, vira instantaneamente “a melhor coisa que já aconteceu ao terror desde que inventaram a luz elétrica”. Isso acontece muito com filmes de terror. Basta lembrar de qualquer outro terror mediano que saiu de Sundance carregado por elogios exagerados e voltou para casa com o público geral dizendo “ué, era só isso?”.

“A Bruxa” não é ruim. Mas também não é a segunda vinda de “O Exorcista” (1973). É… razoável. Tem clima, tem atmosfera, tem atuações fortes. E também tem longos trechos de gente rezando, música sinistra e… nada acontecendo. São 90 minutos que parecem 190. O trailer é mais assustador que o filme inteiro. E se você entrar esperando “a próxima grande sensação do terror”, vai sair com vontade de abraçar “O Babadook” (2014) e pedir desculpas por ter duvidado dele.

Mas vamos aos méritos: conceitualmente, o filme é ótimo. Ambientado no século XVII, com o subtítulo “um conto folclórico da Nova Inglaterra”, “A Bruxa” é tão fiel à época que você quase sente cheiro de puritanismo, mofo e repressão sexual. O diretor Robert Eggers faz todo mundo falar como se tivesse acabado de sair de um sermão de 1630, o que dá ao filme um ar sobrenatural… e também faz você pensar “o que essas pessoas estão dizendo, meu Deus?”. Em cinco minutos de filme, eu já sabia que jamais sobreviveria ali. Eu, que reclamo de fila no mercado, imagina viver cercado de floresta demoníaca e puritanos mal-humorados. E a trilha sonora que parece ter sido composta por espíritos rancorosos… Eu ein!

Na trama, William, um religioso expulso da colônia por algum motivo que nunca fica claro — provavelmente por ser insuportável e porque, aparentemente, já existia cancelamento nessa época. Ele leva a família para viver na beira de uma floresta sinistra que grita “não entre aqui”, onde tudo parece querer matá-los: o clima, a fome, as crianças, a cabra, a própria existência. É o tipo de lugar tão miserável que o sobrenatural é só mais um item na lista de problemas.

E, claro, tudo dá errado imediatamente. O bebê some (levado por uma bruxa que corre com ele como quem leva um frango para o forno), as plantações morrem, a esposa Katherine entra em modo depressão eterna, o filho Caleb (Harbey Scrimshaw) descobre a puberdade olhando para os seios da irmã, e os gêmeos passam o dia conversando com um bode chamado Black Phillip, que claramente tem mais carisma que metade do elenco.

A família tenta rezar para resolver tudo, mas Deus parece estar de férias. Então eles começam a se culpar mutuamente, especialmente Thomasin, que vira o saco de pancadas oficial da casa. Enquanto isso, o mal verdadeiro está solto na floresta, rindo da cara deles.

E aí vem o final (SPOILERS A SEGUIR): Thomasin perde a família inteira, assina o livro do capeta e vai viver nua na floresta com um grupo de bruxas flutuantes. E, sinceramente? Eu fiquei feliz por ela. Depois de tudo que passou, virar bruxa parece um upgrade. Livre arbítrio, vida nova, zero puritanos enchendo o saco. Se isso é errado, não quero estar certo. (FIM DOS SPOILERS)

O elenco é excelente. Anya Taylor-Joy, em seu primeiro longa, entrega uma performance tão boa como Thomasin que você entende por que ela virou estrela depois disso. E o espectador moderno se identifica facilmente com os dilemas de sua personagem: tarefas domésticas, pais controladores e acusações de bruxaria. Quem nunca.

Ralph Ineson e Kate Dickie, ambos de “Game of Thrones”, interpretam os pais. Ineson tem aquela voz grave que parece narrar o apocalipse até quando pede sal na mesa. Ele combina perfeitamente com o clima do filme, seja rezando com fervor, seja brigando com o bode mais assustador da história do cinema.

“A Bruxa” é um filme mais fácil de admirar do que de curtir. Ele é sério, respeitoso, elegante, e evita jump scaries. Mas falta substância para preencher um longa inteiro. Honestamente, funcionaria melhor como um curta de 15 minutos. A mensagem também é meio confusa: é antirreligioso? É pró-Satanás? É sobre repressão? É sobre libertação? É sobre cabras? O filme parece indeciso.

Eu só queria que o filme tivesse mais… filme. Atmosfera e boas atuações não sustentam tudo sozinhas. “A Bruxa” tem uma ideia. Tem um estilo. Mas não explora nenhum dos dois o suficiente.

No fim, “A Bruxa” é um terror que funciona mais como experiência estética do que como entretenimento. Um filme que você aprecia, respeita, discute — mas talvez não ame. E tudo bem! Nem todo bode pode ser o Black Phillip. E, na melhor das hipóteses, faz você pensar que quase nada pode ser mais assustador do que se imaginar vivendo numa época sem Wi-Fi, sem eletricidade e em que o maior entretenimento era… rezar.

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