A Batalha da Rua Maria Antônia (por Kell C. Pedro)

            A Batalha da Rua Maria Antônia (2024), longa-metragem brasileiro dramático, distribuído pela Imagem Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 27 de março de 2025, com classificação indicativa 14 anos e 80 minutos de duração.

            O que acontece quando a história se transforma em arte cinematográfica? “A Batalha da Rua Maria Antônia”, dirigida por Vera Egito, traz uma abordagem corajosa ao revisitar os intensos conflitos entre estudantes da Rua Maria Antônia, em São Paulo, durante os anos sombrios da ditadura militar brasileira. Este drama histórico não apenas busca retratar os eventos, mas também mergulha em questões políticas, sociais e humanas.

            Logo de início, o filme impressiona pela sua fotografia. A escolha de filmar em 16 mm, com uma textura granulada e formato próximo ao quadrado, dá à obra uma atmosfera claustrofóbica que reflete os dilemas e tensões de seus personagens. A paleta de preto e branco, com altos contrastes, reforça o debate polarizado entre comunistas e fascistas, militantes e isentos, USP e Mackenzie. É um recurso visual que serve tanto para situar o espectador no clima da época quanto para ampliar o impacto emocional dos confrontos. O diretor de fotografia William Etchebehere merece destaque por essa abordagem que foge do tradicional e nos aproxima do caos e da urgência que dominam a narrativa.

            A estrutura narrativa também é peculiar: composta por 21 episódios, cada um apresentado em um plano-sequência, com uma contagem regressiva que aumenta a tensão do espectador. Ao invés de focar no clímax da chegada da polícia à USP, o filme escolhe as horas que antecedem o confronto, enfatizando os dilemas e decisões dos personagens envolvidos. Esse formato traz um ritmo dinâmico à obra, transformando o espectador em um participante ativo, como se estivesse andando pelos corredores e subindo as escadas ao lado dos estudantes.

            No entanto, as escolhas estilísticas do filme também têm suas limitações. Dividir a curta duração de 80 minutos em planos-sequência fragmentados faz com que a imersão, frequentemente associada a esse recurso, se dilua. Cada plano possui menos de quatro minutos, o que torna a experiência mais parecida com uma série de cenas independentes do que com uma narrativa contínua em tempo real.

            A direção de Vera Egito brilha ao equilibrar muitos personagens em cena, dando destaque a vozes e perspectivas diferentes, enquanto mantém o foco na luta coletiva. Os momentos de tensão são complementados por instantes poéticos, como o uso de efeitos caleidoscópicos para retratar cenas de intimidade. Porém, algumas escolhas podem soar excessivamente artificiais, como a câmera circulando durante a canção “Roda Viva”, o que diminui o impacto emocional em vez de ampliá-lo.

            Um aspecto que enfraquece o resultado final são os triângulos amorosos introduzidos de forma abrupta. Enquanto a intenção de explorar a psicologia dos personagens além do contexto político é válida, essas subtramas repetitivas e pouco desenvolvidas desviam o foco da narrativa principal. As relações pessoais não têm tempo para se aprofundar, tornando difícil para o espectador investir emocionalmente nos laços entre os personagens, especialmente considerando o curto intervalo de tempo em que a trama se desenrola.

            Em resumo, “A Batalha da Rua Maria Antônia” é uma obra que encontra força na sua ousadia. Ao evitar o conforto de um drama clássico, o filme entrega um retrato visceral da luta estudantil e do impacto político daqueles anos. Vera Egito demonstra maturidade conceitual ao compreender que os dilemas políticos sangrentos e combativos precisam de uma abordagem visual compatível, criando uma obra que, apesar de suas imperfeições, passa a mensagem desejada.

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