“144 – Apocalipse Não”, de João Paulo Cuenca, recebe sessão na repescagem da 50ª Mostra  Internacional de Cinema de São Paulo

Laureado com o Prêmio da Associação dos Correspondentes de Imprensa Estrangeira no Festival do Rio, documentário recebe mais uma oportunidade para ser assistido neste domingo, 1º de novembro, no CineSesc, às 20h30

REPESCAGEM NA MOSTRA SP

Após cumprir sua trajetória regular de exibições na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o documentário “144 – Apocalipse Não”, dirigido, roteirizado e protagonizado por João Paulo Cuenca, ganha mais uma oportunidade de encontro com o público paulistano. O longa-metragem foi selecionado para a repescagem do festival e receberá uma nova sessão neste domingo, 1º de novembro, às 20h30, no CineSesc (Rua Augusta, 2075 — Cerqueira César). 

O ponto de partida da obra se deu após uma publicação satírica no Twitter (atual X) direcionada ao ex-presidente Jair Bolsonaro e à cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus. O episódio deflagrou uma ofensiva judicial coordenada com 144 ações por danos morais movidas por pastores espalhados por diversas comarcas do país, acompanhada por milhares de ameaças de morte. A frase do autor, inspirada em uma célebre paráfrase do Iluminismo francês sobre a separação entre Igreja e Estado, serviu de gatilho em um momento crítico de crise sanitária e política.

Em resposta ao cerceamento e ao labirinto jurídico, Cuenca empreendeu uma jornada de mais de 10 mil quilômetros pelas cinco regiões do Brasil em busca de escuta. Em vez de focar apenas no litígio, o filme acompanha o cineasta em templos evangélicos, cultos domésticos, procissões, rodeios, festas populares, comunidades ribeirinhas do Rio São Francisco, caminhões de pregação em Altamira e clubes de tiro nas fronteiras do agronegócio.

Ao longo de um percurso colorido e musical, o documentário dá voz a uma pluralidade de personagens: desde fiéis que compartilham poesias, milagres e relatos de superação pessoal até pescadores afetados pelo assoreamento dos rios ou pela invasão do oceano em suas casas. Paralelamente, o longa registra o périplo de Cuenca ao tentar encarar os autores dos processos em suas cidades de origem numa tentativa de diálogo. Essa intenção acaba por se desdobrar numa investigação pessoal do autor sobre a própria natureza da fé nos dias de hoje. 

Nas palavras do cineasta Walter Salles: “Bem arquitetado, afiado e com o tempo certo, ‘144 – Apocalipse Não’ é um filme importante, que nos ajuda a desvendar um Brasil a ser melhor compreendido. Fiquei impactado pela capacidade de escuta de João Paulo, que atravessa o país e a divisão binária da sociedade para tentar entender aqueles que não pensam como ele, acessando uma prática religiosa mais polifônica do que a representada em documentários recentes sobre o mesmo tema. Essa postura, tão pouco frequente hoje, faz com que sejamos imantados pelo filme.”

O longa-metragem é uma coprodução da portuguesa O Som e a Fúria com a Bartleby, com produção associada da Duas Mariola, tendo como produtores Luís Urbano, Sandro Aguilar, João Paulo Cuenca e Felipe M. Bragança. O Som e a Fúria é uma produtora portuguesa que coleciona exibições e prêmios nos festivais mais prestigiados do mundo, como Cannes, Berlim e Veneza, e que já produziu obras de autores renomados do cinema internacional, como Miguel Gomes, Manoel de Oliveira, Lucrecia Martel e Ira Sachs.

A direção de fotografia é assinada por Guilherme Tostes, a montagem por Bruna Carvalho e Marta Lopes, a trilha sonora original por Barulhista e o desenho de som por Thiago Sobral e Roland Vajs, vencedor de quatro Emmys e colaborador de diretores como Martin Scorsese, Ang Lee, Larry Clark e Michael Moore. 

REPESCAGEM NA 50ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO

A Exposição: “144 – Fim é o nome do que vem antes do começo”

Paralelamente às exibições no cinema, o público paulistano poderá conferir a vertente das artes visuais deste projeto. A exposição “144 – Fim é o nome do que vem antes do começo”, na galeria NND|AZECO São Paulo, reúne cerca de 70 obras entre pinturas a óleo sobre colagens, mosaicos produzidos a partir de manuscritos e originais de livros, assemblages e uma série de 15 néons.

Com curadoria de Victor Gorgulho e texto crítico do artista Cipriano, a mostra exibe os símbolos de proteção e reação desenhados por Cuenca enquanto acompanhava a tramitação das ações judiciais. “Não há lados vencedores, não há bom ou mau“, pontua Gorgulho sobre a série, que define como um convite à proximidade ancorado no sincretismo religioso brasileiro. Em seu texto “Riscar o segredado: encantar a intenção”, Cipriano aproxima os desenhos em néon de Cuenca aos pontos riscados da umbanda, enxergando no gás preso ao vidro uma prova material da ideia capaz de acender o suporte.

A exposição é gratuita e fica em cartaz até o dia 20 de fevereiro de 2027.

SERVIÇO
Artista: João Paulo Cuenca
Curadoria: Victor Gorgulho | Texto crítico: Cipriano
Período de visitação: até 20 de fevereiro de 2027
Horários: Quarta a sexta, das 10h às 17h; sábados, das 10h às 15h
Local: Galeria NND|AZECO São Paulo
Endereço: Praça da Bandeira, 53 – Centro, São Paulo
Entrada: Gratuita


SINOPSE
Após um tuíte satírico contra Bolsonaro e a Igreja Universal, J.P. Cuenca tornou-se alvo de 144 processos e milhares de ameaças de morte da extrema direita evangélica. Em busca de diálogo, ele parte numa viagem de mais de 10 mil quilômetros por templos lotados, rodeios, festas alemãs, clubes de tiro, cultos domésticos e caminhões gospel em todas as regiões do país. Entre ruína ecológica, fervor religioso e um suposto apocalipse, um Brasil em transe alcança uma apoteose de cor, música e fé. O que precisa acontecer na sua vida para você acreditar?

FICHA TÉCNICA
Título: 144 – Apocalipse Não
Direção e Roteiro: João Paulo Cuenca
Empresas Produtoras: Bartleby e O Som e a Fúria
Empresa Produtora Associada: Duas Mariola
Produção: Luís Urbano, Sandro Aguilar, João Paulo Cuenca e Felipe M. Bragança
Produção Executiva: Luís Urbano
Supervisor de Produção: Felipe M. Bragança

Fotografia: Guilherme Tostes
Montagem: Bruna Carvalho e Marta Lopes
Som Direto e Desenho de Som: Thiago Sobral e Roland Vajs

Trilha Sonora Original: Barulhista

Colorista: Paulo Américo
Gênero: Documentário
País: Brasil e Portugal
Duração: 87 minutos

João Paulo Cuenca | Diretor, roteirista e produtor
J.P. Cuenca é escritor e cineasta, autor de seis livros traduzidos em oito idiomas e vencedor do Prêmio Machado de Assis da FBN. Estreou na direção com “A Morte de J.P. Cuenca”, desenvolvido no Biennale College do Festival de Veneza, exibido no Festival do Rio, na MostraSP e em festivais como CPH:DOX, BAFICI, New Horizons, Festival du Nouveau Cinéma e Punto de Vista, entre outros. “144 – Apocalipse Não” é seu segundo filme e a primeira produção da Bartleby, produtora fundada por ele em 2017. 

O Som e a Fúria | produtora
Fundada em 1998 por jovens da “Geração Curtas”, O Som e a Fúria é uma das mais influentes produtoras de cinema independente de autor no cenário internacional. Com um catálogo de mais de 100 títulos que abrangem curtas e longas-metragens de ficção e animação, a produtora coleciona exibições nos festivais mais prestigiados do mundo, como Cannes, Berlim, Veneza, Locarno e Toronto, e acumula mais de 200 prêmios e menções honrosas.

A produtora apoia e viabiliza projetos de realizadores renomados do cinema português e internacional, como Miguel Gomes, Sandro Aguilar, Ivo M. Ferreira, João Nicolau, Manoel de Oliveira, Salomé Lamas, além de cineastas como Lucrecia Martel, Eugène Green, Ira Sachs e Laís Bodanzky. Sob a liderança do produtor Luís Urbano, vencedor do prêmio Eurimages Co-production Award em 2020, O Som e a Fúria integra instituições de prestígio como a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, a Academia de Cinema Europeu e o European Producers Club.

Duas Mariola Filmes | produtora associada
A Duas Mariola Filmes é uma produtora com sede no Rio de Janeiro focada em filmes autorais e experimentais desde 2006. Foi fundada por um grupo de amigos, entre eles Felipe Bragança, Marina Meliande e Daniel Caetano. A produtora produziu ou coproduziu cinco longas-metragens e oito curtas-metragens, todos exibidos em festivais internacionais de cinema pelo mundo, incluindo Cannes, Veneza, Oberhausen e Locarno.

A Duas Mariola Filmes acredita na possibilidade de inovar a linguagem e a narrativa do cinema brasileiro contemporâneo, criando parcerias com outras produtoras independentes, bem como com empresas já consolidadas do audiovisual nacional. A produtora inicia agora um novo ciclo de trabalhos, com planos de produzir seus próprios filmes nos próximos anos como diretores, além de passar a coproduzir e desenvolver projetos de outros jovens realizadores brasileiros.

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