Rebobinando Memórias: Videolocadora Charada (por Peter P. Douglas)

O documentário “Rebobinando Memórias: Videolocadora Charada” (2026) dirigido por Jefferson Mendes acompanha Gilberto Petruche, dono de uma das últimas videolocadoras que ainda insistem em existir no Brasil. Em vez de fazer um passeio nostálgico superficial, o filme registra o esforço de manter de pé um espaço que já deveria ter sido engolido pelo streaming há muito tempo. A “Charada” continua aberta, mesmo que aos tropeços, e Gilberto segue lá, como se fosse parte da mobília.

O longa-metragem, em seus 92 minutos de duração, não se limita a contar a história de um comércio que se recusa a morrer. Ele reúne depoimentos de gente que viveu e ainda vive da mídia física: William Busa (organizador do “Bazar da Sétima Arte”), Valmir Fernandes (proprietário e fundador da “Obra-Primas do Cinema”), Luiz Sene, Ricardo Luperi, Alan Oliveira, colecionadores, clientes antigos, músicos que ajudam a manter o espaço funcionando e a própria família de Gilberto. O conjunto forma um registro que não tenta maquiar nada: manter uma videolocadora hoje é um ato que desafia lógica, mercado e paciência.

Entre as lembranças mais citadas está o caos causado por “Titanic” (1997). Gilberto relembra a procura absurda pelo filme e a quantidade de 56 cópias que precisou comprar para atender a demanda. É o tipo de história que mostra o tamanho que a “Charada” teve quando ir à locadora era parte da rotina de muita gente.

O documentário acompanha Gilberto atravessando fases da mídia física: o auge do VHS, a chegada do DVD e agora o desafio de sobreviver em uma época em que tudo está a um clique. A “Charada” precisou se adaptar, mas não abriu mão do que a define. O filme entende isso e mostra como o espaço se transformou sem perder a alma que o mantém vivo.

A locadora virou ponto de encontro. Conversas de balcão, amizades que duraram décadas, histórias improváveis — inclusive assaltantes que acabaram voltando como clientes. O lugar ultrapassa o ato de alugar filmes. Para continuar existindo, virou centro cultural, recebe shows e eventos, mas Gilberto faz questão de lembrar que, no fim das contas, aquilo ainda é uma videolocadora. O documentário respeita essa afirmação e mostra por que ela importa.

Em tempos de streaming e pirataria fácil, manter um espaço físico dedicado ao cinema é quase um ato de teimosia. E é justamente essa teimosia que o filme registra.

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