
A Noite de Alaíde (2026), longa-metragem nacional documental, distribuído pela Bretz Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 16 de julho de 2026, com classificação indicativa 12 anos e 100 minutos de duração.
O documentário biográfico (ou docudrama) narra a trajetória de vida e carreira da cantora brasileira Alaíde Costa, atualmente com 90 anos. A obra reconstrói sua jornada desde a infância humilde até o reconhecimento como uma das grandes intérpretes da Bossa Nova, tudo contado com muita leveza, pelas lentes da diretora Liliane Mutti.
A história se inicia com Alaíde narrando sua própria vida. Nascida em 08 de dezembro de 1935, cresceu em uma casa muito simples no bairro da Água Santa (no Rio de Janeiro), em um terreno com cerca de arame e portãozinho baixo. Seu pai era forneiro e sua mãe, uma mulher enérgica e rigorosa. A infância de Alaíde foi marcada pela separação dos pais, o que gerou rancor e dificuldades. Ela relata que sua mãe não permitia que ela visse o pai, e muitas vezes ela saía escondida da escola para procurá-lo, o que lhe rendia severos castigos físicos quando descoberta.
Ainda criança, Alaíde começou a ouvir rádio e se apaixonou por músicas românticas que não tinham nada a ver com o ambiente em que vivia. Isso gerou uma certa rivalidade no bairro, especialmente com uma vizinha chamada “Elza Soares”, e ambas eram ridicularizadas pela vizinhança por sonharem em ser cantoras. Apesar das zombarias e da falta de apoio, Alaíde não desistiu. Ela começou a estudar com uma professora chamada Dona França, que lhe ensinou as primeiras lições e lhe deu um novo propósito.
O grande ponto de virada na infância de Alaíde aconteceu de forma inusitada. Seu irmão Adilson a inscreveu secretamente para cantar no Circo do Encantado, localizado na Rua Borja Reis. Embora estivesse aterrorizada e muito tímida (uma característica que a acompanha até hoje), ela subiu ao palco e cantou “Minha Terra”, de Vicente Celestino. Ela venceu o concurso do circo, mas ao voltar para casa, recebeu uma violenta punição de sua mãe, que considerava aquilo uma desobediência.
A vida adulta de Alaíde é marcada pela superação contínua. Ela enfrentou dificuldades financeiras, chegando a trabalhar como babá, enquanto tentava entrar no mercado musical. Ela conta que enfrentou forte preconceito racial (por ser negra) no início de sua carreira, sendo direcionada apenas para cantar sambas, enquanto sua musicalidade ia muito além.
Sua carreira profissional ganhou força na Rádio Clube do Brasil, onde se tornou crooner. Foi nesse período que um técnico da gravadora Odeon a ouviu e a indicou para Aloisio de Oliveira, que acabara de gravar com Silvinha Telles. Após um teste, Alaíde assinou contrato com a Odeon.
Um momento crucial de sua carreira foi o encontro com o movimento da Bossa Nova. Por intermédio de João Gilberto, ela foi convidada a participar de um encontro de músicos na Gávea, onde conheceu Oscar Castro Neves, Carlos Lyra, Nara Leão, entre outros. Alaíde foi a única cantora negra a participar ativamente desse movimento inicial, contribuindo com sua voz profissional e refinada, antes mesmo de a Bossa Nova se tornar mundialmente famosa. Ela gravou álbuns importantes, contando com a parceria de gigantes como Vinicius de Moraes e Tom Jobim.
O documentário também aborda as provações que Alaíde enfrentou ao longo da vida. Ela passou por uma cirurgia delicada de otosclerose, que comprometeu sua audição e, segundo os médicos, deveria ter sido o fim de sua carreira musical. Contudo, ela desafiou as expectativas e continuou cantando, adaptando-se à nova realidade.
Alaíde fala abertamente sobre as dificuldades de equilibrar a maternidade (ela tem três filhos) com as exigências da profissão de cantora, recusando-se a abandonar seus filhos para sair em turnê. Ela também critica a indústria fonográfica, mencionando como ficou marginalizada pela gravadora Odeon após o lançamento do disco “Coração”, produzido por Milton Nascimento, chegando a pedir rescisão de contrato.
Alaíde reflete em vários momentos sobre sua trajetória. Ela reconhece que passou longos períodos sem gravar e muitas vezes teve que cantar em bares para sobreviver, mas nunca parou. O filme culmina com ela celebrando sua resistência e o seu legado na música popular brasileira. Ela encerra a narrativa cantando “Meu samba é a voz do povo”, reafirmando sua identidade, sua luta e sua arte, e uma reparação histórica do Carnegie Hall em Nova York.
A parte técnica do longa mistura imagens de arquivo — apresentações, registros antigos, memórias preciosas — com encenações feitas por atores usando rotoscopia. Sim, aquela técnica em que o ator atua normalmente e depois alguém desenha por cima dele.
A diretora usa a técnica para preencher lacunas de material, recriar momentos que não foram registrados e, ainda assim, não apagar o brilho da história — especialmente porque a própria Alaíde narra várias passagens com aquela voz linda e suave que parece um abraço carinhoso. E, falando em voz, é claro que, há vários momentos em que ouvimos Alaíde cantar. Isso, por si só, já valeria o ingresso no cinema ou a locação/assinatura no streaming.
Em suma, “A Noite de Alaíde” é um depoimento emocionante e corajoso sobre a vida de uma artista que realmente “comeu o pão que o diabo amassou”, mas que, com resiliência, talento e coragem, abriu seu próprio caminho na música brasileira. É a história de alguém que enfrentou tudo, caiu, levantou, brilhou — e agora ganha uma homenagem que faz jus à sua trajetória.











