
Procuro sempre abordar filmes de forma imparcial, sem preconceitos. Não leio críticas antes de assistir, fujo de artigos de revistas de cinema e tenho o hábito peculiar (minha esposa chama de neurose) de desviar o olhar da tela durante trailers — às vezes fico encarando o balde de pipoca como se ele fosse um portal para outra dimensão. Quando escolho um filme no streaming, evito até ler a sinopse. Meu cenário ideal é sentar no sofá sem saber absolutamente nada sobre o que vou ver.
Mas, como convivo com pessoas da alta sociedade e leio muitos artigos, às vezes é impossível assistir a um filme sem que a “sabedoria convencional” interfira. Quando dizem que x é a melhor coisa que já aconteceu ao terror, eu assisto com um olhar crítico e cético. Quando dizem que y é a maior porcaria já lançada, penso: “Essa pessoa claramente nunca viu um filme do estúdio Asylum então y não pode ser tão ruim assim”, e procuro os pontos positivos.
Digo tudo isso porque talvez eu esteja sendo um pouco hipercrítico na minha análise de “Demons – Filhos das Trevas (Dèmoni), o filme de 1985 dirigido por Lamberto Bava e roteirizado por Dario Argento. Há fãs de terror que consideram o terror italiano — especialmente Argento — anos-luz à frente de qualquer outra coisa. Minha opinião sobre Argento é bem favorável, e “Demons 1” é um ótimo exemplo do porquê. O filme tem muitos elementos excelentes, apesar de algumas falhas. E não, eu não sou um adolescente espinhento sem experiência no gênero. Se eu tivesse que dar uma nota de um a cinco, seria seiscentos e sessenta e seis.
Ambientado na Berlim dos anos 80, o filme começa com uma estudante chamada Cheryl (Natasha Hovey) pegando o metrô para a universidade. Ela parece assustada, embora não saibamos por quê. Talvez tenha medo de metrô. Talvez a moda punk que estava chegando à cidade a tenha deixado nervosa. De qualquer forma, ela chega à estação exatamente quando os créditos terminam — conveniência cinematográfica é tudo. A plataforma está deserta, claro. Ela vê um sujeito usando uma máscara metálica horrível estilo “Fantasma da Ópera”. Naturalmente, ela corre, porque qualquer pessoa com uma máscara metálica horrível do “Fantasma da Ópera” é, no mínimo, um entusiasta de sadomasoquismo. Ele aparece no topo da escada rolante e para o alívio de Cheryl, entrega um panfleto sinistro: “Hoje, às 20h, no Metropol”. A arte do panfleto sugere que o diretor de arte tinha outros compromissos naquele dia.
Cheryl, mesmo sem saber qual seria o filme exibido, aproveita a oportunidade para pedir outro panfleto para sua amiga, Kathy (Paola Cozzo). Afinal, nunca é demais aceitar ingressos não especificados de estranhos com aparência assustadora…
Cheryl encontra Kathy do lado de fora da estação e convence a amiga a matar aula e ir com ela ao Metropol para esse evento misterioso. A amiga teme — com razão — que seja uma pré-estreia de filme de terror. O saguão do cinema, por algum motivo bizarro (leia-se: conveniência de roteiro), tem em exposição uma motocicleta e uma máscara metálica. Rosemary (Geretta Giancarlo), uma das covidadas para a sessão, decide colocar a máscara, se corta na bochecha e… bem, isso será importante depois.
Os personagens se sentam para assistir ao filme dentro do filme (olha a metalinguagem). Parece ser um terror italiano sobre o cemitério onde Nostradamus está enterrado, com propriedades físicas que fazem mulheres gritarem demais. Vemos mais desse filme interno do que normalmente veríamos, mas precisamos, porque os eventos dele — alguém se corta com uma máscara encontrada no túmulo de Nostradamus e vira um “demônio”/zumbi — também estão acontecendo fora da tela. A partir daí, tudo fica previsível… ou não!
Apesar de alguns poucos problemas, “Demons” é reconhecido por seus méritos. Sim, já vimos zumbis/demônios um milhão de vezes. Sim, há citações literais demais de outros filmes — e o que dizer das hélices de um helicóptero fatiando zumbis. Sim, há vômito verde. Mas nada disso importa. Bava (filho do lendário Mario Bava) faz um ótimo trabalho com zumbis e entrega efeitos de sangue e violência deliciosamente exagerados. O que falta em alguns momentos sobra em estilo. Ele acerta em cheio.
Não posso falar deste filme sem mencionar a trilha sonora – e que trilha sonora! Além de uma versão com influência de Grieg/Bach do incrível synth-rock de Claudio Simonetti, que os fãs de Dario Argento certamente reconhecerão, este filme apresenta uma maravilhosa mistura de músicas icônicas dos anos 80. Seja a forma como “White Wedding”, de Billy Idol, toca quando um grupo de punks está dando voltas de carro por Berlim, ou a maneira como o filme utiliza o metal dos anos 80 (de bandas como Mötley Crüe, Accept e Saxon) em momentos especialmente frenéticos ou épicos, este filme é simplesmente sensacional.
E o que dizer da dublagem inglesa/americana sobreposta na italiana… entendedores entenderão.
Os fãs atuais do terror italiano vão adorar o sangue e as vísceras de ” Demons 1 – Filhos das Trevas”, embora talvez discordem sobre o roteiro. Se você é novo no terror italiano, comece por aqui. Este é um dos filmes de terror mais DIVERTIDOS dos anos 80 que você terá a oportunidade de ver.
















