Fuori (por Casal Doug Kelly)

Goliarda Sapienza (Valeria Golino), escritora de cinquenta e cinco anos e dona de uma vida que daria inveja a qualquer novela mexicana, finalmente sai da prisão de Rebbibia, na Itália, em 1980. Ela foi parar lá por vender joias roubadas — um detalhe que o filme guarda para a metade, como quem diz “calma, ainda tem plot twist”. Entre idas e vindas temporais, o foco mesmo está nos primeiros meses de liberdade, quando Goliarda conhece Roberta (Matilda De Angelis), uma ex‑detenta que mistura ativismo político, adrenalina e um talento especial para se meter em encrenca. Ah, e ela tem metade da idade de Goliarda.

As duas viram amigas do peito graças a três elementos essenciais: uísque, passeios de carro que fariam o DETRAN chorar e pequenos delitos que, no universo do filme, contam como hobby. Mas não se engane: elas não são “Thelma & Louise”. A relação é uma mistura curiosa de carinho e tensão, com Roberta chamando a situação de “incestuosa” e Goliarda respondendo com serenidade: “Eu não sou sua mãe”. De vez em quando surge Barbara (Elodie Di Patrizi), outra ex‑detenta, agora chiquérrima trabalhando em loja de luxo — um salto e tanto para quem, dias antes, estava envolvida em uma cena de rebelião com direito a gritos e guardas invadindo o recinto.

Na vida real, Sapienza ficou só cinco dias presa. Mas o diretor decidiu que isso era pouco cinematográfico e transformou a experiência em algo digno de uma temporada inteira de série. Provavelmente para justificar o vínculo intenso entre Goliarda, Roberta e Barbara — ou porque cinco dias não enchem nem meia hora de filme.

O 14º longa-metragem do diretor Mario Martone é, acima de tudo, uma história sobre irmandade feminina — daquelas que jamais passariam no teste de Bechdel reverso. Baseado na vida da própria Goliarda Sapienza, o filme “Fuori” (2025) mostra uma escritora que produzia como uma impressora descontrolada, mas que quase ninguém lia. Os momentos mais íntimos acontecem em lugares nada glamourosos: bar da praça, táxi e um banheiro rosa onde as três tomam banho juntas, sem tensão sexual, só cumplicidade mesmo — e um pouco de vapor.

Golino é o grande trunfo do filme. Ela tem aquele olhar meio triste, meio sábio, e uma presença que segura a história. Poderia facilmente ter virado um drama banal, mas ela dá profundidade à personagem, mostrando alguém marcada pelo passado, mas ainda cheia de vontade de viver. E, claro, sempre observando tudo com o olhar de quem já está transformando aquilo em literatura.

O filme reflete sobre liberdade — aquela velha discussão entre estar preso por fora e solto por dentro, ou o contrário. Goliarda chega a se perguntar se não era mais livre na prisão do que agora, o que diz muito sobre o caos emocional da personagem.

Mas aí vem o problema: o filme praticamente não explica nada sobre a obra de Goliarda Sapienza. Sabemos através de pesquisa que ela escreveu muito, que foi reconhecida só depois de morta e que tinha um romance gigante chamado “A Arte da Alegria”. Mas o filme não mostra nada disso. Nem mesmo o marido — que supostamente resgatou seus textos — é explicado. Um homem aparece no apartamento dela, mas quem é? Marido? Vizinho? Entregador? Mistério. Se você não conhece a biografia dela, vai continuar sem conhecer.

No fim, “Fuori” parece dividido entre duas vontades: contar uma história de união feminina e fazer um drama sobre uma escritora genial e incompreendida. Quem busca o primeiro lado vai sair satisfeito. Quem espera entender a escritora… talvez precise de um livro ou um buscador de internet como apoio.

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