Mestres do Universo, 1987 (por Peter P. Douglas)

Muito antes da Amazon MGM Studios decidir que “Mestres do Universo” precisava de mais uma tentativa em live‑action, a Cannon Films já tinha nos presenteado com… bem… algo que tecnicamente pode ser chamado de filme.

Algumas produções chegam prontas, confiantes, sabendo exatamente o que querem ser. “Mestres do Universo” (Masters of The Universe, 1987) chega como aquele tio bêbado no Halloween que foi expulso da festa boa, invadiu a sua usando meia fantasia, segurando uma arma de brinquedo e gritando para todo mundo prestar atenção. É uma obra que nasceu não de inspiração, mas de puro desespero. Desespero da Cannon. Desespero nas bilheterias. Desespero porque os brinquedos estavam vendendo como água. Desespero porque alguém no estúdio gastou dinheiro demais e ninguém lembrava onde.

E, no entanto, cá estamos. Quase quarenta anos depois. Ainda falando disso. Todos nós reconheceríamos a Chave Cósmica numa vitrine de objetos de cinema tão rápido quanto reconheceríamos a Arca da Aliança. Então, graças ao poder das dívidas crescentes da Cannon, vamos para Eternia — mas, por motivos financeiros, acabaremos nos subúrbios dos EUA.

Para entender a produção, é preciso entender a Cannon Films nos anos 80. Um estúdio comandado por dois homens que acreditavam que a solução para qualquer problema era fazer mais filmes, mais rápido e mais barulhentos. Eles produziam de tudo: ninjas, Chuck Norris, breakdance, comédias picantes, dramas que eles não compreendiam e pelo menos um filme que era, tecnicamente, um filme, mas espiritualmente uma discussão.

Em 1987, a Cannon estava afundada em dívidas. Eles tinham torrado uma fortuna tentando parecer respeitáveis, culminando no desastre chamado “Superman 4 – Em Busca da Paz” (1987). De repente, o dinheiro sumiu. “Mestres do Universo” deveria ser o grande triunfo. Um épico de fantasia que transformaria brinquedos em ouro e ouro em… bem, você sabe. Mas o orçamento começou a encolher mais rápido que a dignidade do Esqueleto.

A ideia original era um épico em Eternia. Mas a realidade bateu à porta. Os cenários diminuíram. Os efeitos foram simplificados. O roteiro virou um rascunho desesperado. Até que alguém disse as palavras que selaram o destino do filme: “E se… eles forem para a Terra?”. Não foi uma decisão criativa. Foi contabilidade pura.

Se você cresceu vendo He‑Man, lembra de Eternia como um lugar cheio de cores absurdas, castelos gigantes e vilões que pareciam ter sido criados por alguém com tempo demais. No filme, vemos Eternia por uns seis minutos. O Castelo de Grayskull, umas pedras, uma máquina de fumaça que parece ter sido emprestada de algum filme sobre ninjas. Esqueleto já está ganhando quando, de repente, somos jogados na Terra. Porque a Terra é barata. Tem ruas. Tem muros. Tem carros de polícia que você pode alugar. A Terra não exige construir um planeta inteiro enquanto os credores batem na porta.

Então, em vez de um épico, temos Dolph Lundgren andando por uma cidadezinha americana vestido como um viking sem camisa, pedindo ajuda a adolescentes como se tivesse perdido o carro no estacionamento. É chocante. É estranho. É claramente um remendo. E, sinceramente? Funciona… do jeito torto que só coisas quebradas conseguem funcionar.

Grande parte disso é culpa — ou mérito — de Dolph Lundgren. Ele é o He‑Man perfeito… até abrir a boca. Ele fala pouco, e quando fala parece que o inglês é sua terceira opção depois do sueco e de socar coisas. No desenho, He‑Man era confiante e adorava dar sermões. No filme, ele parece estar tentando entender por que portas existem. Mesmo assim, Lundgren tem um charme curioso. Ele leva tudo a sério. Não pisca para a câmera. Não parece envergonhado. Ele acredita naquilo, e isso ajuda o público a acreditar também.

Enquanto isso, Orko morreu por motivos financeiros. O mago flutuante do desenho foi considerado caro demais. Então a Cannon criou Gwildor, uma criatura peluda com nariz de trombeta que parece um Ewok rejeitado. Ele existe para mover a trama com fita adesiva. Não é culpa dele. Ele nasceu de planilhas e desespero. Mas para quem esperava Orko, foi uma traição com espuma de borracha.

O lado bom? Frank Langella. Ele está em outro nível. Ele não está “melhor do que o esperado”. Ele está atuando como se estivesse em “Hamlet”, enquanto o resto do elenco parece estar em um comercial de brinquedos. Ele devora o cenário com prazer. Ele não fala, ele declama. Ele não ameaça, ele discursa. Ele é tão bom que parece ter sido teletransportado de um filme melhor. Por que ele aceitou o papel? Porque seu filho adorava He‑Man. Simples assim. E isso faz tudo valer a pena.

Ao lado dele, Meg Foster entrega uma Maligna/Evil‑Lyn que confundiu muitos adolescentes da época. A voz, o olhar, o figurino… digamos apenas que muita gente descobriu sentimentos novos assistindo a esse filme.

No fim das contas, “Mestres do Universo” (1987) é uma relíquia torta, cheia de remendos, mas guardada com carinho. Não é bom. É desajeitado. Vive tropeçando. Quase dá para ouvir os produtores perguntando: “Podemos pagar isso?”. E, mesmo assim… Guardamos boas lembranças não porque foi incrível, mas porque tentou. Porque parecia gigantesco quando éramos pequenos.

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