
Em 2018, fui ao cinema buscando assistir o máximo possível de longas-metragens concorrentes ao Oscar. Entre eles estava o representante libanês: “Cafarnaum” (Capernaum, 2018). O protagonista deste filme é Zain (Zain Al Rafeea), um garoto de doze anos que vive nas favelas de Beirute e cuja vida é tão problemática que até o juiz penal fica confuso. Nosso protagonista está prestes a cumprir cinco anos de prisão por esfaquear alguém e chamá-lo de “filho da puta”. Detalhe: ninguém sabe sua idade real porque seus pais nunca se deram ao trabalho de registrar o menino. É o tipo de família que não perde um episódio da novela, mas perde o próprio filho no cartório.
Zain é levado ao tribunal porque quer processar os pais por… tê-lo colocado no mundo. O juiz, com a cara de quem acabou de ouvir a maior reviravolta da carreira, pergunta por quê. E Zain responde com a simplicidade de quem já viu demais: “Vocês me tiveram”. Argumento difícil de rebater.
Enquanto isso, a polícia está revistando trabalhadores migrantes, e conhecemos Rahil (Yordanos Shifera), uma jovem etíope que está tentando sobreviver com documentos prestes a expirar. O filme nos joga no presente, mas logo puxa o freio e diz: “Calma, vamos voltar uns meses porque a desgraça aqui é retroativa”.
Meses antes, Zain morava com os pais e sete irmãos, todos vivendo uma rotina tão organizada quanto um guarda-roupa depois de um furacão. Em vez de escola, as crianças trabalhavam nas ruas: vendiam drogas, faziam entregas, sobreviviam como dava. Quando a irmã adolescente de Zain menstrua pela primeira vez, ele tenta esconder — porque sabe que, se os pais descobrirem, ela será “trocada” para o senhorio. E é exatamente isso que acontece. Por duas galinhas. Duas. Galinhas. Zain, com toda razão, foge.
Ele segue um cara vestido de Homem-Aranha até um parque de diversões e acampa lá. É onde conhece Rahil, que trabalha como faxineira e, com pena do menino, deixa que ele more com ela — desde que cuide de Yonas (Boluwatife Treasure Bankole), seu bebê adorável e malcheiroso. Rahil está desesperada por novos documentos, mas um falsificador quer o filho dela como pagamento. Ela recusa, e quando seus papéis expiram, é presa. Zain e Yonas ficam sozinhos.
Zain decide assumir a guarda do bebê como se fosse um irmão. Começa a vender drogas para sustentar os dois, porque aparentemente no universo dele não existe opção fácil. Ele conhece Maysoun, uma refugiada síria que revela que o falsificador planeja enviar Rahil para a Suécia… sei! O falsificador promete levar Zain também — desde que ele entregue Yonas. Mas para isso, Zain precisa de um documento. Ele volta para casa, e os pais revelam que… surpresa! Ele não existe oficialmente. E ainda o expulsam.
Antes disso, porém, eles soltam a bomba final: sua irmã adolescente morreu durante a gravidez. Zain, tomado pela fúria, esfaqueia o senhorio e acaba preso. Na cadeia, descobre que a mãe está grávida de novo e pretende chamar a criança de Sahar, como a filha morta. Ele pede que ela não volte mais para visitá-lo.
Quando um programa de TV entra na prisão para abordar o assunto de abuso infantil, Zain decide contar sua história. No tribunal, ele pede ao juiz que obrigue seus pais a parar de ter filhos, porque claramente não estão dando conta nem dos que já têm. Ele também denuncia o falsificador, que é preso, e Yonas finalmente volta para Rahil.
No fim, Zain tira sua primeira foto para um documento de identidade. O fotógrafo pede para ele sorrir. E ele sorri. O filme termina ali, com um sorriso que vale mais do que qualquer final feliz artificial.
O filme pode ser resumido a uma única palavra: “desgraça”, mas não no sentido ruim. É como uma “pornografia da pobreza” ao oferecer um retrato cru da realidade de muitos no Líbano. Migrantes como Rahil vivem em limbo, crianças como Zain são forçadas a amadurecer antes da hora, e tudo isso é mostrado com uma honestidade brutal. Eu saí do filme destruído, mas também grato por ter assistido. E sim, quero ver mais trabalhos da diretora Nadine Labaki — mesmo sabendo que ela vai acabar com meu emocional de novo.











