A Astronauta (por Peter P. Douglas)

“A Astronauta” (The Astronaut, 2025) é aquele tipo de filme que mistura ficção científica, terror e paranoia como quem faz vitamina no liquidificador: joga tudo lá dentro e torce para ficar bom. Kate Mara interpreta a Capitã Sam Walker, uma astronauta da NASA que volta da sua primeira missão espacial com um pequeno detalhe: um buraco no capacete e na nave, o que, em teoria, deveria tê-la transformado em purê de astronauta. Mas ela está viva. O que já é suspeito.

Como manda o protocolo, Sam precisa ficar em quarentena. Mas, graças ao seu pai adotivo — o General William Harris, interpretado por Laurence Fishburne no modo “já fiz esse papel 12 vezes” — ela não vai para um laboratório frio e assustador. Não. Ela vai para uma casa moderna, luxuosa e iluminada. Só faltou uma cozinha com ilha central e um Golden Retriever correndo pelo jardim.

Sam insiste para todo mundo — médicos, técnicos, o general e até o ex-marido (Gabriel Luna) que aparece com a filha adotiva (Scarlett Holmes) — que está tudo bem. Mas não está. Logo começam as dores de cabeça, zumbidos, flashbacks, uma erupção cinza na mão e… ovos flutuando. Porque nada diz “estou ótima” como alucinar ovos voadores.

Ela tenta esconder tudo para não ser punida, afastada ou transformada em estudo de caso. Mas quando o sistema de segurança começa a detectar “algo” andando pela casa, Sam percebe que talvez tenha trazido um souvenir indesejado do espaço. E não é uma pedra lunar.

Kate Mara manda bem no papel de “mulher tentando manter a sanidade enquanto tudo ao redor grita que ela está ferrada”. Os outros personagens são rasos, mas funcionam — Fishburne poderia fazer esse papel dormindo, e talvez tenha feito.

Jess Varley, na sua estreia solo como diretora, entrega uma abordagem elegante, lenta e cheia de clima. O design de som é psicodélico, a casa é tão bonita que dá vontade de morar lá (menos quando começa a ter entidade no quintal), e os sustos são bem colocados.

O filme não é exatamente inovador, mas vai soltando, para o público, migalhas pelo caminho visando algo maior. A reviravolta? Surpreendente. Eu, que geralmente adivinho essas coisas antes do filme começar, fui pego de surpresa. Ponto para Varley.

Agora… o título. “A Astronauta”. Só que não tem espaço. Nada. Zero. Tudo acontece na Terra, dentro da casa. É quase propaganda enganosa. Além disso, o orçamento limitado aparece em alguns efeitos especiais que parecem ter sido renderizados num fim-de-semana apressado.

Mesmo assim, há muito o que gostar. Varley aposta mais na atmosfera do que na ação, criando um clima mais Arquivo X do que Alien. É um filme pequeno, mas bem construído, com uma protagonista excelente e uma reviravolta que vale o ingresso.

Não vai reinventar o gênero, mas é uma boa pedida para assistir com as luzes apagadas — ou acesas, se você também tiver medo de ovos flutuantes.

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