
Nada como uma aventura de uma noite para voltar do além e destruir sua paz mental anos depois. É exatamente isso que move “24° Dia: O Prazo Final” (The 24th Day, 2004): dois homens presos em um apartamento, um ressentimento do tamanho de um prédio e zero chance de alguém sair dali com dignidade intacta. Há outros personagens? Sim. Eles importam? Absolutamente não.
Dan (James Marsden) é o tipo de sujeito cauteloso que provavelmente lê bula de remédio antes de tomar vitamina C. Ele conhece Tom (Scott Speedman), que tem a sutileza emocional de um furacão, em um bar. Em minutos, Dan abandona a amiga Isabella (Sofia Vergara) — que aparece tão pouco no filme que poderia ser um holograma — e vai para a casa de Tom. Só que, em vez de clima, vinho e conversa, Tom resolve fazer uma entrevista investigativa sobre a vida sexual de Dan. E não demora para Dan perceber que já viu aquele olhar antes.
Cinco anos antes, os dois tiveram uma noite regada a álcool e decisões questionáveis. Agora Tom revela que é HIV positivo e, num salto lógico digno de novela ruim, decide que Dan é o culpado. A solução? Manter Dan preso em seu apartamento deprimente enquanto espera o resultado de um teste. Nada diz “resolução saudável de conflitos” como cárcere privado.
O filme vira um duelo psicológico: Tom acusa, Dan rebate, ambos expõem as feridas um do outro como se estivessem competindo para ver quem tem mais traumas. Tom critica Dan por não ser honesto sobre sua vida sexual; Dan devolve apontando os problemas de Tom com sua própria sexualidade. É praticamente uma sessão de terapia conduzida por duas pessoas que claramente não deveriam estar em terapia juntas.
Aos poucos, descobrimos que Tom tinha uma esposa que morreu, e ele culpa Dan, culpa a si mesmo, culpa o universo — basicamente, culpa tudo, menos a própria incapacidade de assumir responsabilidade. Ele chega ao ponto de ameaçar matar Dan caso o teste dê positivo, porque coerência não é algo que Tom trabalha. E, como era de se esperar, ninguém sai ganhando. É um empate técnico no campeonato de autodestruição.
O filme é baseado em uma peça de Tony Piccirillo, que também dirige a adaptação — o que explica a vibe teatral de “duas pessoas brigando em um cômodo só”. E apesar de lançado em 2004, o longa tem aquele cheirinho de final dos anos 90 — provavelmente vindo do apartamento de Tom.
Marsden e Speedman estão excelentes. Eles carregam o filme nas costas, já que o roteiro exige que passem 90% do tempo trancados em um apartamento discutindo como se estivessem em um reality show.
No fim, “24° Dia – O Prazo Final” é uma demonstração intensa de poder, ressentimento e péssimas decisões. Dan e Tom não são exatamente adoráveis, mas são convincentes — e Marsden e Speedman fazem um trabalho tão bom que você até esquece que está assistindo duas pessoas emocionalmente destruídas tentando arrastar uma à outra para o fundo do poço.
















