
É sempre divertido quando Hollywood decide brincar de matemática criativa: depois de um filme e uma sequência meio esquecível, surge “Os Estranhos: Capítulo 1” (The Strangers – Chapter 1, 2024) — também conhecido como “o terceiro filme que insiste em ser o primeiro (prequel)”. A lógica é duvidosa, mas vá lá. A ideia é relançar a franquia, mesmo que o entusiasmo do público esteja tão vivo quanto uma bateria de celular com 2%.
O primeiro “Os Estranhos” (2008) funcionava porque era simples, direto e genuinamente assustador. Já sua continuação “Os Estranhos: Caçada Noturna”… bom, esse a gente prefere esquecer em alguns momentos. Agora chega o “Capítulo 1” (de 3), dirigido por Renny Harlin, que um dia comandou “Duro de Matar 2 (1990), mas aqui parece ter vindo só para bater ponto. O roteiro ficou a cargo de Alan R. Cohen e Alan Freedland, baseado nos personagens criados por Bryan Bertino. Os três filmes da nova trilogia foram filmados simultaneamente, o que explica muita coisa.
O problema central? “Capítulo 1” tenta tanto imitar o filme de 2008 que praticamente vira um cosplay. Só que sem a tensão, sem o pavor e sem a menor noção de ritmo. É como assistir a uma versão reduzida, diluída e esticada de algo que já era simples. O filme tem cerca de 30 minutos de conteúdo real, mas insiste em fingir que é um longa. O resultado é um “Continua…” tão sem graça que parece punição.
A história até começa direitinho: Maya (Madelaine Petsch) e Ryan (Froy Gutierrez), dois pombinhos viajando de Nova York a Portland, param na cidadezinha de Venus no Oregon, onde os moradores têm aquele clássico ar de “não confie em ninguém daqui”. O carro quebra, o mecânico só resolve no dia seguinte, e o casal acaba em um Airbnb no meio da floresta — porque nada diz “decisão inteligente” como se hospedar em um chalé isolado em um filme de terror.
A noite começa romântica, mas logo aparecem os três psicopatas mascarados, inicialmente só incomodando, depois sacando machados e facas como quem diz: “Agora sim, começou o expediente”. A premissa é simples, como no original, mas a execução… ah, a execução.
Harlin parece acreditar que suspense se constrói com closes intermináveis de gente assustada e vilões parados na sombra olhando fixamente para a câmera. O filme é basicamente isso: portas abrindo devagar, corredores percorridos devagar, personagens pensando devagar… e, quando lembram que estão em perigo, correndo como se tivessem lembrado que deixaram o fogão ligado.
E falando em personagens, Maya e Ryan não ajudam. As decisões deles são tão absurdas que você começa a torcer pelos assassinos só para acabar logo. Sim, personagens burros são tradição no terror, mas aqui a burrice atinge níveis olímpicos.
No fim, “Os Estranhos: Capítulo 1” parece um episódio piloto esticado até não poder mais. Passamos o filme inteiro esperando que algo aconteça — qualquer coisa — e quando finalmente acontece, a recompensa é tão pequena que dá vontade de pedir reembolso. É uma versão reduzida do original, sem o charme, sem o medo e sem a menor justificativa para existir além de preparar terreno para os próximos dois filmes.
















