
O escritor britânico Roald Dahl, (autor de obras como “James e o Pêssego Gigante” e “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, era segundo o próprio universo, uma pessoa tão simpática quanto um cacto mal-humorado — o que explica perfeitamente por que suas histórias infantis são tão deliciosamente cruéis. Ele escrevia para crianças como quem escreve um dossiê contra a humanidade: sem paciência para adultos, sem tolerância para fofura falsa e com um estoque inesgotável de rancor.
Em “Matilda” (1996) essa energia amarga se materializa na figura de Trunchbull (Pam Ferris), uma mulher que tecnicamente pertence à espécie humana, mas que claramente está ali por engano. Ela é ex-campeã olímpica de arremesso de peso e martelo, o que faz todo sentido quando a vemos administrando a escola Crunchem Hall como se fosse um campo de treinamento militar para crianças que ousam sorrir. Seu lema — “Quando você está se divertindo, você não está aprendendo” — resume bem sua filosofia pedagógica, que mistura disciplina, terror psicológico e um toque de sadismo esportivo.
Matilda Wormwood (Mara Wilson), por outro lado, é uma criança brilhante, negligenciada e insultada pelos pais (Danny DeVito e Rhea Perlman) que se dedicam fortemente a serem péssimos. Ela lê clássicos aos 6 anos enquanto os pais devoram televisão como se fosse alimento espiritual. Quando ela diz que quer ir à escola, o pai responde com a sabedoria típica de quem nunca abriu um livro: “Ler pra quê, se tem TV?”. É quase poesia.
A chegada de Matilda à Crunchem Hall é um encontro entre genialidade infantil e crueldade institucionalizada. Trunchbull a trata como se fosse um inseto inconveniente, e o filme não economiza nas demonstrações de violência cartunesca: crianças sendo arremessadas pelos cabelos, armários com pregos, humilhações públicas… tudo com aquele toque Dahliano de “é horrível, mas você vai rir mesmo assim”.
Os pais de Matilda são tão grotescos que parecem ter saído de um laboratório de caricaturas. Eles comem, gritam, assistem TV e tratam a filha como um incômodo ambulante. Dahl sempre teve um talento especial para transformar adultos em criaturas moralmente duvidosas, e aqui ele se supera.
A salvação vem na forma da Srta. Honey (Embeth Davidtz), uma professora tão doce que parece ter sido criada para equilibrar o nível de crueldade do resto do elenco. Ela reconhece o talento de Matilda e se torna sua guardiã — praticamente a única adulta funcional em todo o universo do filme.
Danny DeVito, que dirige e atua, entende perfeitamente o espírito da obra. Ele abraça o humor negro, o absurdo e a crítica social sem tentar suavizar nada. Não há condescendência, não há sentimentalismo fácil.
No fim, “Matilda” é uma comédia sombria sobre pais idiotas, professores sádicos e uma criança brilhante tentando sobreviver a tudo isso. É engraçado, é ácido, é cruel na medida certa. E, surpreendentemente, também é sincero. Porque, por trás de toda a maldade estilizada, existe uma verdade simples: às vezes, as crianças são mais sensatas que todos os adultos ao redor.
















