O Pentelho, 1996 (por Peter P. Douglas)

O Pentelho (The Cable Guy, 1996) é o segundo longa de Ben Stiller como diretor. Nele, Matthew Broderick interpreta um arquiteto tão normal, tão absolutamente sem sal, que chega a ser quase uma obra-prima antropológica. Ele se muda para um novo apartamento e, como qualquer cidadão inocente, só quer instalar a TV a cabo. Eis que entra em cena Jim Carrey, que recebeu 20 milhões de dólares de cachê adiantados para interpretar Chip Douglas — um sujeito tão carente de limites que faria até o Coringa pedir um tempo.

Na época do lançamento, o público ficou ofendido. Afinal, Carrey vinha de “Ace Ventura” , “O Máscara” e “Batman Eternamente”, filmes em que sua insanidade era fofinha, aceitável, quase terapêutica. Mas “O Pentelho” ousou fazer algo imperdoável: mostrar que aquele mesmo comportamento, quando colocado no mundo real, não é engraçadinho — é assustador. E o público de 1996, coitado, não estava preparado para rir e sentir medo ao mesmo tempo.

O segredo do filme, porém, não é Carrey — é Broderick. O personagem Steven Kovacs é tão absurdamente comum que funciona como um espelho cruel. Ele é o “antes” da propaganda de remédio para ansiedade. Ele é o “funcionário padrão” da vida. Ele é o tipo de pessoa que você esquece que existe mesmo quando está falando com ela. E é justamente essa normalidade agressiva que transforma Chip Douglas em algo digno de estudo psiquiátrico. Sem Steven, Chip seria só mais um personagem hiperativo de Carrey. Com Steven, ele vira um pesadelo ambulante.

E acompanhando atentamente a trama sombria, dá pra ver vários sinais de que o estúdio se intrometeu onde não devia. Algumas cenas foram cortadas porque executivos acharam “perturbadoras demais”. O que, convenhamos, é hilário vindo de Hollywood, que produz filmes onde pessoas são trituradas, explodidas e possuídas por demônios antes do café da manhã. Os últimos cinco minutos, que deveriam fechar o filme com um cinismo delicioso, foram trocados por um final mais “aceitável”. Resultado: a obra continua funcionando, mas dá para sentir o cheiro de interferência corporativa no ar.

Apesar da trama principal – Carrey e Broderick -, não se pode esquecer a história paralela que ocorre concumitantemente na “TV”: um ex-astro mirim sendo julgado pelo assassinato do irmão gêmeo. Stiller aparece como o acusado, Eric Roberts surge como os gêmeos no filme dentro do filme, e toda a América parece obcecada com o caso. É uma piada cruel sobre o público, que adora apontar o dedo para Chip Douglas enquanto passa horas consumindo tragédias alheias como se fossem entretenimento de domingo. Difícil rir quando percebemos que somos parte da plateia que o filme está zombando.

O elenco de apoio funciona bem — Leslie Mann está ótima, Jack Black aparece antes de virar “Jack Black”, e todo mundo cumpre seu papel. Mas, no fim, este é o show de Carrey e Broderick. Um duelo entre o caos hiperativo e a normalidade entediante. Um encontro entre o palhaço descontrolado e o cidadão que só queria assistir TV em paz.

“O Pentelho” foi subestimado, mal compreendido e rejeitado por um público que esperava mais um festival de caretas inofensivas. Em vez disso, ganhou uma comédia sombria, desconfortável e deliciosamente cruel. Um filme que ri da obsessão televisiva, da solidão moderna e da facilidade com que alguém pode arruinar sua vida só porque sabe instalar um cabo coaxial.

É estranho, é desagradável, é engraçado — e, ironicamente, é melhor do que muita coisa que Carrey fez antes ou depois. Mas não diga isso muito alto. Chip Douglas pode ouvir.

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