
O Mago do Kremlin (The Wizard of the Kremlin, 2025), longa-metragem franco-estadunidense de thriller político, distribuído pela Imagem Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 09 de abril de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 145 minutos de duração.
“Ninguém está seguro na Rússia.” Pois é, já começamos com aquela frase que poderia muito bem estar estampada na capa de um guia turístico do submundo político. Olivier Assayas, ao adaptar o romance “O Mago do Kremlin”, claramente decidiu brincar com fogo — e com gasolina — ao levar para o cinema um romance que cutuca a política russa com a delicadeza de um rinoceronte usando patins. Giuliano da Empoli escreveu, em 2022, um livro cheio de informações, análises afiadas e aquele charme intelectual que faz qualquer leitor se sentir mais esperto do que realmente é. Assayas olhou para isso e pensou: “Perfeito. Vamos filmar.”
O filme reconstrói décadas de história russa como quem monta um quebra-cabeça de 5 mil peças… só que com algumas peças faltando e outras repetidas. Tudo é contado ao escritor Rowland (Jeffrey Wright) por Vadim Baranov (baseado na figura real de Vladislav Surkov), interpretado por Paul Dano, que aqui assume a forma de um ser humano tão opaco que poderia facilmente ser confundido com uma parede bem pintada. A jornada vai da Perestroika até a invasão da Crimeia, passando por um sistema de poder vertical que funciona à base de medo, ameaças, assassinatos e, claro, aquele charme autoritário que só a Rússia atual sabe entregar.
Vadim começa como um jovem artista animado com a nova Rússia dos anos 90 (pós queda da URSS), onde festas selvagens convivem com adaptações teatrais de romances distópicos. Mas basta um empurrãozinho do amigo capitalista Dimitri Sidorov (Tom Sturridge) e um olhar sedutor de Ksenia (Alicia Vikander) para ele virar produtor de reality show — porque nada diz “ascensão política” como manipular audiência televisiva. Logo ele cruza o caminho de Berezovsky (Will Keen), que o manda garantir a reeleição de Boris Yeltsin a qualquer custo. Missão cumprida, é hora de escolher o sucessor. E quem aparece? Vladimir Putin, interpretado por Jude Law com uma convicção tão inesperada que você quase acredita que ele realmente sabe falar russo (apesar do sotaque britânico).
A parceria entre Vadim e Putin é apresentada como uma descida ao submundo, tipo Orfeu, só que com menos poesia e mais paranoia. O filme é dividido em capítulos, cheio de cenários grandiosos e eventos históricos jogados na tela como se fossem figurinhas de álbum: Chechênia, Kursk, Sochi, oligarcas caindo como dominós, motoqueiros patrióticos… está tudo lá, desfilando como se fosse um desfile temático do apocalipse político.
Mas, claro, nem tudo são flores radioativas. O filme fala muito, fala demais, fala tanto que às vezes parece que está tentando ganhar no cansaço, porque muitas das vezes acaba dizendo nada. Toca em mil assuntos, mas aprofunda uns três. E se você não tiver um mínimo de conhecimento prévio, vai passar metade da sessão tentando entender quem é quem e por que todo mundo parece estar conspirando contra todo mundo. A edição também não ajuda: há momentos em que parece que alguém apertou o botão “corta qualquer coisa que faça sentido”.
O elenco, por outro lado, está ótimo. Ninguém tropeça no sotaque, mesmo interpretando russos com inglês britânico e americano — o que, convenhamos, já virou tradição em Hollywood. Paul Dano está tão enigmático que poderia ser contratado como esfinge moderna. Jude Law entrega um Putin que você não sabia que precisava ver. Alicia Vikander, Tom Sturridge e companhia completam o pacote com competência.
Além dos já descritos, um dos grandes feitos do filme é entregar frases de efeito que realmente valem a pena serem ouvidas e, posteriormente, entendidas e aplicadas. É isso que mantém o público alerta, pois elas costumam ser pronunciadas de repente.
No fim, “O Mago do Kremlin” é totalmente assistível — aquele tipo de filme que você vê, entende metade, finge que entendeu tudo e depois comenta com ar intelectual. Ele só peca por não ser fluido o suficiente para fazer suas mais de duas horas passarem sem você checar o relógio. Mas, considerando o tema, talvez isso faça parte da experiência: afinal, se até a política russa é um labirinto, por que o filme seria diferente?
















