Super Mario Bros., 1993 (por Peter P. Douglas)

Há filmes que fracassam com dignidade, e há “Super Mario Bros.” (1993), que fracassa com a graça de um encanador caindo da escada enquanto segura uma chave inglesa e um copo de uísque — simultaneamente. E é exatamente esse colapso glorioso que o torna, contra toda expectativa e bom senso, algo digno de análise.

A sabedoria popular dos círculos cinematográficos decretou que o filme é uma obra abominável, um pecado contra a Nintendo, a humanidade e o bom gosto em geral. Essa sabedoria popular está errada, o que não deveria surpreender ninguém que já tenha visto a sabedoria popular em ação. “Super Mario Bros.” não é um filme bom da maneira que Titanic (1997) é bom. É bom da maneira que um cachorro-quente às três da manhã é bom — ninguém vai colocar no currículo, mas todo mundo já precisou de um.

Bob Hoskins e John Leguizamo como Mario e Luigi não são a aberração que o consenso popular insiste em proclamar. São dois atores de talento genuíno que, segundo o próprio Leguizamo, em seu livro de memórias, conduziram boa parte das filmagens em estado de embriaguez moderada a generosa. O dado perturbador aqui não é que beberam — é que, mesmo assim, continuaram sendo os pontos mais funcionais do filme. Se dois homens visivelmente comprometidos pelo uísque ainda conseguem entregar mais carisma do que o roteiro merece, algo de extraordinário está acontecendo ali. Hoskins, o mesmo que fez o mundo acreditar em coelhos animados em “Uma Cilada para Roger Rabbit”, ainda encontra meios de ancorar o espectador numa realidade que envolve dinossauros humanoides e uma Nova York subterrânea chamada Dinohatten.

O problema central do filme não é o elenco, nem o design, nem mesmo a ideia absolutamente desvairada de transformar o Rei Bowser Koopa (Dennis Hopper) num déspota reptiliano de metrópole distópica. O problema é que ninguém, em nenhum momento da produção, conseguiu responder à pergunta mais básica do cinema: que filme é esse? É comédia familiar? É ficção científica adulta? É terror corporal com dinossauros? É uma reflexão sociológica sobre mamíferos e répteis disputando o controle do planeta? “Super Mario Bros.” é tudo isso ao mesmo tempo, o que na prática equivale a não ser nada com convicção.

Os diretores Rocky Morton e Annabel Jankel chegaram ao projeto com um currículo que incluía o saudoso “Morto ao Chegar” (DOA, 1988) — um fracasso de crítica e bilheteria — e a experiência televisiva de uma série, o que, convenhamos, é uma preparação fascinante para comandar um blockbuster de grande orçamento baseado em um dos videogames mais populares do planeta. Eles assumiram o leme e decidiram, com a sobriedade que faltou ao elenco, que o que o público realmente queria era uma parábola distópica sobre evolução e ódio interespécies. O estúdio, que havia encomendado originalmente um roteiro mais adulto ao vencedor do Oscar Barry Morrow e depois o substitui pela dupla responsável por “Os Flintstones: O Filme” (1994) em busca de algo mais leve, terminou com algo infinitamente mais pesado e confuso do que qualquer um dos dois extremos.

O roteiro aprovado chegou a existir numa versão que remetia a “O Mágico de Oz” e “Alice no País das Maravilhas”, com uma Coroa da Invencibilidade e uma princesa chamada Hildy, por razões que a história não se deu ao trabalho de registrar. Essa versão foi descartada em favor de Dinohatten, microgerenciamento, brigas de bastidores e um acidente de set que machucou a mão de Hoskins. A produção foi, portanto, também um filme de terror — só que esse ninguém filmou.

O que sobreviveu ao naufrágio tem seus méritos indisfarçáveis. As referências ao videogame são mais abundantes do que a memória coletiva admite: Bob-ombs; Bullet Bills; Yoshi como dinossauro realista; a princesa Daisy (Samantha Mathis), namorada do Luigi; Toad (Mojo Nixon) reinterpretado como humano de carne e osso); as botas que funcionam como o sapato do Kuribo; os túneis onipresentes que são, afinal, a espinha dorsal mitológica de qualquer aventura de Mario.

A Nova York distópica do filme, por sua vez, tem uma densidade visual que em outro contexto seria celebrada. Numa produção mais coesa, Dinohatten seria um mundo memorável. Aqui, é um cenário extraordinário desperdiçado num roteiro que não sabe bem o que quer dele.

“Super Mario Bros.” de 1993 é, em última análise, a tragédia de um filme que tinha todos os ingredientes para funcionar, porém cozinheiros demais com receitas incompatíveis. Não é o desastre sem salvação que a lenda popular construiu, mas tampouco é o filme que alguém planejou fazer. É o resultado honesto de uma produção em colapso que ainda assim, por alguma combinação improvável, produziu algo que as pessoas ainda se lembram — e sobre o qual ainda escrevem. No cinema, há destinos piores.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *