À Paisana (por Peter P. Douglas)

À Paisana (Plainclothes, 2026), longa-metragem estadunidense de drama e romance, distribuído pela Synapse Distribution, estreia, oficialmente, no streaming Filmelier+, a partir de 02 de abril de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 96 minutos de duração.

Antes de mais nada é possivel afirmar que “À Paisana” pode, facilmente, ser classificado como um dos melhores filmes LGBTQIAPN+ de 2025. A trama acompanha o jovem policial Lucas (Tom Blyth) no momento em que perde uma carta que nunca deveria ser lida, durante a festa de Ano Novo de sua mãe. Enquanto a procura em meio a um ambiente familiar sufocante, memórias de um passado que ele tenta deixar para trás vêm à tona.

Quanto menos se souber sobre a profundidade da trama, melhor será a experiência ao assistir o filme. Sendo assim, fiquem avisados de que haverá pequenos spoilers durante a construção da análise. Continue por sua própria conta e risco…

Os ornamentos decadentes de um cinema antigo — aquele tipo de lugar que parece ter cheiro de pipoca velha e arrependimento — testemunham, nos anos 90, o encontro de dois homens navegando as águas turbulentas do desejo. Por alguns minutos, parece haver tranquilidade no ar: dois caras trocando olhares, flertes e vulnerabilidade, como se o mundo não estivesse prestes a desabar sobre eles. É um momento tão calmo que até o espectador pensa: “ufa, finalmente alguém aqui está respirando”.

Esse instante de paz reflete exatamente como Lucas (Tom Blyth) se sente: compreendido pela primeira vez em muito tempo. E olha, ele precisava disso, porque o resto do filme é um mergulho direto na mente de um homem gay enrustido que vive em modo “pânico constante”. Carmen Emmi, estreando lindamente na direção de longas (também responsável pelo roteiro), e o editor Erik Vogt-Nilsen constroem montagens frenéticas que misturam vídeos granulados, imagens digitais impecáveis e flashes de memórias como se a cabeça de Lucas fosse um liquidificador emocional no modo turbo.

Essas colagens — que incluem pais, ex-namorada e colegas de trabalho — funcionam como um retrato honesto da ansiedade de alguém que vive com medo de ser exposto. É brilhante, é tenso, é estiloso… e sim, às vezes é tanto estímulo que você sente vontade de pedir um calmante. Mas até isso funciona, porque a intenção é justamente essa: te colocar dentro da mente de Lucas, e a mente dele não é exatamente um spa.

O motivo de tanta angústia? Lucas trabalha como policial disfarçado em operações para prender homens gays em banheiros públicos. Sim, ele é pago para flertar com caras e depois destruí-los. É praticamente o pior emprego possível para alguém que está tentando esconder a própria sexualidade. Cada prisão é um lembrete cruel de que ele poderia ser o próximo. E ele sabe disso.

Aí aparece Andrew (Russell Tovey), um homem que parece ter saído diretamente do catálogo “pais suburbanos que fazem churrasco aos domingos”. Há uma faísca imediata entre eles — daquelas que fazem Lucas pensar “meu Deus, isso é perigoso” e, ao mesmo tempo, “meu Deus, isso é exatamente o que eu quero”. A química entre os dois é tão perceptível que, se o filme fosse exibido em 4D, o público sentiria cheiro de tensão sexual no ar.

Para Andrew, esse reencontro é um lembrete doloroso do que ele nunca pôde viver. Para Lucas, é um aviso do que ele ainda pode perder se continuar se escondendo. A diretora intercala essa relação com cenas após a morte do pai de Lucas e a festa de Ano Novo cheia de parentes inconvenientes — porque nada diz “drama emocional” como família reunida.

O único parente de Lucas que pode ser classificado como tóxico é o tio Paul (Gabe Fazio), um homofóbico clássico que namora mulheres jovens demais e acha que isso o torna um “homem de verdade”. Ele é o tipo de pessoa que fala atrocidades com a confiança de quem nunca foi contrariado na vida. Fazio o interpreta com uma arrogância tão realista que você quase sente vontade de jogar uma almofada na tela.

O mais interessante é que Lucas não vem de um lar traumático. Nada de pais abusivos, nada de avô violento, nada de “explicações fáceis” para sua sexualidade. E ainda assim, ele é quem é. Os anos 90 podem parecer próximos, mas o filme nos lembra que, para pessoas gays, aquela década ainda era um campo minado. Um olhar errado podia arruinar vidas.

No fim, “À Paisana” é um filme que se destaca justamente por abraçar a confusão emocional de seu protagonista. É estiloso, ousado, intenso e profundamente humano — mesmo quando está te deixando tão ansioso quanto o próprio Lucas. É pesado, sim, mas também serve como lembrete de que esconder quem somos nunca salvou ninguém… principalmente de si mesmo!

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