Holy Spider (por Peter P. Douglas)

Os assassinatos cometidos pelo chamado “Assassino da Aranha” estão entre as últimas lembranças de Ali Abbasi do período em que viveu no Irã, antes de se mudar para a Escandinávia para estudar cinema. Por isso, é compreensível que ele tenha decidido revisitar essa história em seu segundo longa-metragem, “Holy Spider” (2022), um suspense inspirado de maneira livre na trajetória real do serial killer responsável pela morte de 16 profissionais do sexo no Irã, no início dos anos 2000.

Em “Holy Spider”, Abbasi busca retratar dois lados conflitantes de seu país de origem: de um lado, indivíduos ambiciosos e de mentalidade mais aberta; de outro, grupos tradicionalistas e radicais. Uma das linhas narrativas acompanha Rahimi (Zar Amir-Ebrahimi), uma jornalista investigativa que viaja a Mexede para cobrir um caso que não avança, tentando pressionar as autoridades a agir. A outra narrativa acompanha Saeed, o assassino em série que alterna entre estrangular mulheres e brincar com os filhos — um equilíbrio de vida que nenhum coach de produtividade ousaria recomendar.

A divisão do filme em duas perspectivas acaba deixando as vítimas de Saeed com pouco espaço. Elas aparecem apenas como elementos secundários dentro da trama policial, sem desenvolvimento de personalidade, e quando recebem algum destaque, é de forma breve. Saeed, por sua vez, recebe bastante tempo de tela, tanto para mostrar seus crimes quanto para evidenciar sua posição social aparentemente respeitável. Ele mata, reza, volta para casa, janta, mata de novo. Um profissional dedicado.

Rahimi também enfrenta dificuldades ao longo da narrativa. Assim como ocorreu com a atriz na vida real, sua personagem é constantemente seguida e julgada devido a um boato sobre seu passado. E esse boato funciona como detector de caráter: quem é cruel, mostra; quem é solidário, também. O Irã de Abbasi é um lugar onde até fofoca vira arma política.

Após utilizar diversos elementos típicos de histórias policiais — incluindo a protagonista servindo como isca — Saeed é finalmente capturado. É nesse ponto que “Holy Spider” altera seu foco e encontra sua identidade mais clara. Abbasi passa a explorar o período posterior à prisão, reunindo diferentes setores da sociedade no tribunal e colocando-os em confronto. Alguns passam a idolatrar Saeed por supostamente “limpar” as ruas, outros permanecem neutros até perceberem qual lado prevalecerá, enquanto juízes e líderes religiosos tentam equilibrar interesses do governo e da população. Rahimi, por sua vez, insiste na busca por justiça. Cada grupo tem algo em jogo, o que torna o desfecho particularmente tenso.

Mas a verdadeira força que paira sobre todos não é Deus, nem o diabo, nem o fantasma das vítimas. Há uma força que, no fim, determina o destino de Saeed: Teerã. Ninguém escapa ao julgamento vindo “de cima”, seja o assassino, a jornalista, a polícia ou o sistema judiciário de Mexede. No final, não é a vontade popular nem a justiça que prevalecem, mas sim a preservação da imagem institucional.

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