
Mirai (Mirai – Ma Petite Soeur, 2018), longa-metragem de animação japonês, estreia, oficialmente, no streaming Filmelier+, a partir de 12 de março de 2026, com classificação indicativa Livre e 97 minutos de duração, dirigido por Mamoru Hosoda.
Família é uma palavra poderosa, sim. Poderosa o suficiente para transformar adultos funcionais em zumbis e crianças em criaturas capazes de manipular emoções com a precisão de um ditadorzinho de 80 centímetros. “Mirai” entende isso profundamente e decide narrar tudo pelos olhos de Kun, um menino de quatro anos que já está passando pela primeira crise existencial da vida: a chegada da irmãzinha.
Kun vivia tranquilo, brincando com seus trenzinhos e com seu cachorro Yukko, até que Mirai nasce e rouba toda a atenção dos pais. De repente, o mundo dele desmorona. E, como qualquer criança de quatro anos, ele reage com a maturidade emocional de um vulcão em erupção. Birra, choro, drama, ódio — o pacote completo. Hosoda (em seu sétimo longa-metragem como diretor) retrata isso com uma precisão tão realista que você quase sente cheiro de fralda e desespero parental.
Kun é irritante, sim. Um pestinha completo. Mas também é impossível não sentir empatia. Ele acredita genuinamente que sua vida acabou porque não é mais o centro do universo. E, convenhamos, para uma criança dessa idade, isso é praticamente uma tragédia grega.
A coisa fica mais interessante quando elementos fantásticos começam a surgir. Kun é transportado para outros mundos, encontra parentes do passado, presente e futuro, e aprende lições de vida que nenhum adulto conseguiu ensinar. A melhor parte é que nunca sabemos se tudo isso está realmente acontecendo ou se é só a imaginação hiperativa de uma criança que precisa urgentemente de uma soneca. Hosoda mantém essa ambiguidade com maestria.
O encontro com o bisavô é um dos momentos mais bonitos. Kun tem medo de andar de bicicleta, mas o bisavô o ensina a superar o medo. É simples, é tocante e é o tipo de cena que faz adulto chorar escondido para não admitir que um filme sobre crianças o destruiu emocionalmente.
Hosoda domina o tom do filme com perfeição. Ele nunca esquece que está contando a história pela perspectiva de uma criança. Isso significa que momentos bobos viram comédia e situações simples viram terror psicológico. A cena em que Kun se perde na estação de trem é praticamente um pesadelo animado. A arte muda, o mundo distorce, tudo fica assustador — como se o menino tivesse sido jogado num episódio infantil de “Silent Hill”.
O clímax chega quando Mirai do futuro aparece e leva Kun numa viagem pelos momentos marcantes da família. É lindo, é emocionante e é de derreter até o coração mais cínico. Quando Kun vê o pai ainda criança, a cena ganha outro sentido. É o tipo de revelação que faz você repensar sua própria infância e talvez até mandar mensagem para seus pais dizendo “foi mal por tudo”.
A animação de Hosoda é simples, mas extremamente eficaz. Os designs minimalistas destacam o cotidiano, e quando elementos fantásticos entram em cena, o contraste é poderoso. A transição entre animação tradicional e CGI é suave e dá ao filme uma atmosfera única. A trilha sonora de Masakatsu Takagi complementa tudo com perfeição — lúdica, travessa, inocente e, às vezes, cinematográfica.
No fim, “Mirai” é especial porque explora o drama familiar com sensibilidade e criatividade. É um filme que te dá vários motivos para não ter filhos, mas também mostra o quão gratificante pode ser ver uma criança superar seus medos. Hosoda claramente colocou muito de si nessa história. Às vezes, parece até que ele fez o filme para si mesmo, como um lembrete de que criar filhos é difícil, mas vale a pena… na maior parte do tempo.
















