Aquela Noite (por Peter P. Douglas)

Aquela Noite (Quitter La Nuit AKA Through The Night, 2023), longa-metragem de drama, coprodução Bélgica, Canadá e França, distribuído pela Imovision, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 12 de março de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 108 minutos de duração.

“Aquela Noite”, de Delphine Girard, é basicamente o cinema olhando para a sociedade e dizendo: “então… vocês ainda não sabem lidar com estupro, né?”. E a sociedade responde: “não”. O filme pergunta o que acontece depois — depois do crime, depois do trauma, depois da denúncia, depois do silêncio. E a resposta é: uma confusão emocional, jurídica e moral que faria até Kafka pedir férias.

Tudo começa numa noite, dentro de um carro, numa estrada deserta, com um homem e uma mulher. Ela está ao telefone, supostamente ligando para a irmã. Mas, na verdade, está ligando para o 999 (número de emergência do Reino Unido), tentando avisar que acabou de ser estuprada — sem que o agressor perceba. É o tipo de cena que faz você suar frio e agradecer por nunca ter entrado num carro com desconhecidos (ou pelo menos não depois das 23h).

Essa abertura já tinha aparecido na obra anterior da diretora (o curta-metragem “A Sister”, 2018), que decidiu expandir a história. E que expansão. O filme acompanha três personagens: Aly, a vítima; Anna, a atendente da emergência que pega o telefonema e tem sua vida virada do avesso; e Dary, o estuprador, que tem cara de “bom filho, bom vizinho, bom moço” — porque, claro, quem não adora um agressor com aparência de cidadão modelo.

Selma Alaoui interpreta Aly, uma jovem que se recusa a carregar o rótulo de vítima como se fosse uma sacola de supermercado. Ela tenta seguir em frente, mas o sistema insiste em puxá-la de volta para o trauma, como um elástico emocional. Veerle Baetens é Anna, a atendente que fica obcecada com o destino de Aly — porque, aparentemente, ouvir um estupro ao telefone às três da manhã não é algo que você simplesmente “supera”. E Guillaume Duhesme é Dary, o agressor que deveria ficar calado, mas insiste em existir.

Girard entrelaça essas três narrativas como quem monta um quebra-cabeça emocional com peças faltando. Ela coloca vítima e agressor no mesmo filme — algo que raramente vemos — e mostra como o silêncio dele pesa mais do que qualquer palavra dela. Aly tem sua história questionada, sua moralidade examinada, sua vida vasculhada. Ela não é a “boa vítima”: não chora o suficiente, não colabora o suficiente, não se comporta como o tribunal gostaria. E, claro, vira responsável por “proteger outras mulheres” ao vencer o caso. Porque nada mais justo do que colocar o peso da segurança pública nas costas de uma mulher traumatizada.

Enquanto isso, Dary volta para a casa da mãe — interpretada por Anne Dorval, que entrega uma tristeza tão profunda que você quase sente pena dela… quase. Ele tenta se reerguer, porque até estuprador tem arco dramático, aparentemente.

Anna, por sua vez, vira o fio emocional do filme. Ela observa, absorve, sofre e, no fim, encontra em Aly uma espécie de irmandade tardia — um momento de consolo que o sistema inteiro se recusa a oferecer.

“Aquela Noite” funciona como um mosaico de dor, silêncio, culpa e burocracia. Girard mostra que violência sexual não é um evento isolado, mas uma bomba-relógio que continua explodindo na vida das vítimas por anos. E, sim, também afeta os agressores — mas só porque eles finalmente têm que lidar com as consequências, o que para muitos já é considerado “tragédia”.

No fim, o filme nos lembra que estupro não é só um crime: é uma ferida social que ninguém quer olhar diretamente. E que, quando olhamos, percebemos que estamos todos muito mal preparados para lidar com ela. Se a sociedade fosse uma pessoa, “Aquela Noite” seria a terapia que ela vive adiando.

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