
Ruas da Glória (2024), longa-metragem nacional de drama, distribuído pela Retrato Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 02 de abril de 2026, com classificação indicativa 18 anos e 110 minutos de duração.
Na trama, Gabriel (Caio Macedo) chega ao Rio de Janeiro, pisa na boate Glória e, em menos de três segundos, se apaixona por Adriano (Alejandro Claveaux). É amor à primeira vista, primeira piscada, primeiro suor compartilhado no ar. E pronto: está estabelecido o único conflito do filme — “vou possuir ou não vou possuir esse homem?”. Shakespeare chora, mas segue em frente.
Assim que se beijam, os dois viram um casal tão grudado que poderiam ser vendidos como kit promocional. A direção, sutil como um tijolo, reforça isso com uma quantidade industrial de cenas de beijo em close, com sons tão amplificados que parecem gravados dentro da boca dos atores. E quando chega a hora do sexo, Felipe Sholl aposta em planos longos, gemidos altos e aquela estética retraída que tenta parecer ousada, mas entrega apenas suor, costas e o clássico “rosto em êxtase” que já vem pronto no pacote de filmes que têm medo de mostrar o que realmente estão sugerindo.
Para provar que o amor é verdadeiro, os atores precisam atuar como se estivessem possuídos por uma entidade dramática. Eles arregalam os olhos, se agarram como se o mundo fosse acabar, se cheiram como dois cães no cio e fazem sexo com a intensidade de quem tenta devorar o outro. O filme reforça aquele velho estereótipo de que relação entre dois homens é sempre brutal, violenta, carnal e destrutiva — nada de afeto, cumplicidade ou parceria. Aqui é tudo testosterona, suor e caos emocional.
Até os momentos “fofos” são tratados como se fossem propaganda de energético: brincadeiras infantis na piscina improvisada, risadas exageradas, e Gabriel sensualizando para a câmera enquanto bate no próprio rosto para lembrar a “pegada” do namorado. É poesia, mas poesia escrita por alguém que nunca viu dois homens se relacionando de verdade.
E, claro, não poderia faltar o combo tóxico clássico: assim que se envolve com Adriano, Gabriel mergulha no vício em cocaína, abandona a carreira de professor e começa a fazer programa — tudo apresentado como consequência direta do romance. O filme abraça com carinho aquele imaginário antiquado de que relacionamentos homoafetivos são portais para a criminalidade, a decadência moral e a destruição pessoal.
O longa romantiza um relacionamento abusivo com a convicção de quem acha que sofrimento é prova de amor. Quanto mais os personagens choram, se machucam, se arrastam pelas ruas, apanham, e se drogam, mais o filme tenta nos convencer de que esse laço é profundo. Na prática, é só tóxico mesmo.
E, como se não bastasse, “Ruas da Glória” lança aos leões seus personagens secundários. Mônica, Laila, Mateus e Roger existem apenas para servir Gabriel. Eles acolhem, aconselham, ajudam, aparecem na hora da crise, resolvem problemas… mas não têm vida própria. Não têm conflitos, desejos, romances, nada.
Gabriel, por sua vez, não faz absolutamente nada por eles. É amado, acolhido, protegido, mas não retribui um gesto sequer. E o filme? Não critica isso nem por um segundo. Pelo contrário: trata como normal, aceitável, até bonito.
No fim, “Ruas da Glória” tenta ser um drama intenso sobre amor e autodestruição, mas acaba sendo uma colagem de clichês de erotização da violência. É um filme que acredita estar fazendo uma grande declaração sobre paixão, mas entrega apenas caos, fetiche e um protagonista que confunde sofrimento com profundidade.
É a glória… só que não.















