Fresh, 2022 (por Peter P. Douglas)

Mimi Cave não economizou nada em sua estreia na direção de longa-metragens com “Fresh”. Aliás, resenhar esse filme é quase tão complicado quanto sobreviver a um encontro do Tinder: quanto menos você souber antes de entrar, maiores suas chances de sair inteiro. Mas vamos lá — com cuidado e algumas pitadas de sarcasmo.

O filme já começa acertando no elenco. Daisy Edgar-Jones interpreta Noa, uma mulher que odeia encontros com a mesma intensidade com que odeia calça jeans desconfortável. Ela detesta tudo: o ritual, o constrangimento, as perguntas idiotas, a humilhação, a decepção… basicamente, todo o pacote “namoro moderno”. Ela está solteira há tanto tempo que virou especialista — quase uma monja do desapego.

Mas, no fundo, Noa ainda é romântica. Por isso, continua navegando no aplicativo Puzzle Piece, onde conhece Chad (Brett Dier), um ser humano cuja personalidade gira em torno de cachecóis e refluxo. O encontro deles acontece num restaurante chinês que só aceita dinheiro — o que já deveria ser sinal de alerta — e Chad ainda consegue criticar o look dela. É claro que Noa odeia encontros.

Quando ela está prestes a desistir de vez, aparece Steve (Sebastian Stan), um cirurgião plástico bonitão que surge na seção de frutas do supermercado — porque nada diz “romance” como conhecer um estranho entre maçãs e pepinos. Ele é charmoso, educado, sorridente… praticamente um comercial ambulante de pasta de dente. Noa cai no papo, e os dois começam a namorar.

Pouco depois, Steve a convida para um fim de semana misterioso. A amiga Mollie (Jojo T. Gibbs), que tem o dom da sinceridade brutal, tenta alertar Noa de que isso parece roteiro de crime real. Mas Noa vai mesmo assim. Steve a leva para uma casa isolada na floresta, sem sinal de celular — porque, claro, nada de ruim jamais aconteceu em casas isoladas na floresta sem sinal.

Até aqui, tudo parece uma comédia romântica meio esquisita. E então, com 38 minutos de filme… PÁ. Surge a tela de título. É nesse momento que o filme vira outra coisa — algo que mistura humor negro, horror explícito e uma vontade sincera de fazer você repensar cada encontro que já teve na vida.

Não vou revelar a grande reviravolta (a internet já fez isso por mim), mas Cave espalha pistas desde o início. “Fresh” mergulha em profundezas perturbadoras, alternando entre o grotesco e o hilariamente absurdo. É um filme que te faz rir e imediatamente questionar por que diabos você riu.

Daisy Edgar-Jones está excelente. Ela passa por todos os estados emocionais possíveis: charmosa, esperta, vulnerável, aterrorizada, resiliente. É praticamente um curso intensivo de sobrevivência emocional. Mas o verdadeiro caos vem de Sebastian Stan, que abandona a fachada de “bom moço” com a mesma facilidade com que troca de camisa. Ele entrega um vilão tão carismático quanto perturbado — e ainda protagoniza uma cena de dança ao som de “Obsession” do grupo “Animotion” que vai assombrar sua memória para sempre.

Visualmente, o filme é um banquete — daqueles que você olha e pensa “que lindo”, mas depois percebe que talvez não devesse ter comido. Mimi Cave cria um estilo elegante e nauseante ao mesmo tempo, com cores vibrantes, closes desconfortáveis e imagens grotescas filmadas com uma beleza quase indecente. Pawel Pogorzelski (de “Hereditário” e “Midsommar”) assina a fotografia, então você já sabe que vai sofrer com classe.

No fim, “Fresh” é um thriller perverso, engraçado, nojento e surpreendentemente inteligente. Não é para estômagos fracos — e faz questão de provar isso. Mas, se você aguentar o tranco, vai encontrar um filme tão repugnante quanto satisfatório, que brinca com o absurdo sem perder o fio da crítica.

É um prato cheio. E, dependendo do seu humor… talvez até um pouco indigesto.

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