Enzo (por Peter P. Douglas)

Enzo (2025), longa-metragem francês de drama, distribuído pela Mares Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 19 de março de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 102 minutos de duração.

Me peça para parar se isso lhe soar familiar: verão europeu, sol brilhando, corpos suados, um adolescente descobrindo a vida e… claro, se apaixonando por um homem mais velho, musculoso e emocionalmente indisponível. A paixão é intensa, proibida e fadada ao fracasso, culminando naquele clássico plano-sequência onde o garoto encara o vazio após um telefonema devastador. Sim, “Enzo”, de Robin Campillo (trabalhando com o roteiro final do saudoso Laurent Cantet), parece tanto “Me Chame Pelo Seu Nome” (2017) que chega a dar vontade de conferir se o pêssego também aparece no elenco. E, infelizmente, a comparação só deixa Campillo em posição fetal.

Enzo (Eloy Pohu) é um garoto de 16 anos, rico, privilegiado e entediado — aquele combo clássico de adolescente europeu que mora numa casa tão luxuosa que nem os pais dele deveriam conseguir pagar. Em sua rebeldia de classe média alta, ele decide abandonar os estudos e trabalhar na construção civil, onde, para variar, também é péssimo. É a típica revolta adolescente: “vou sofrer para provar que sou diferente”, mas sem a parte do sofrimento real.

O que começa como birra contra o pai autoritário, Paolo (Pierfrancesco Favino), vira vocação quando Enzo se apaixona por Vlad (Maksym Slivinskiy), um ucraniano de 25 anos dividido entre a vida confortável na França e a guerra no seu país. Sob a supervisão de Vlad, Enzo finalmente aprende a trabalhar — veja só, o amor realmente move montanhas, ou pelo menos ajuda a carregar cimento.

Slivinskiy é o grande destaque: carismático, magnético e com mais profundidade emocional em um olhar do que Enzo tem no filme inteiro. Ele alterna entre galã relaxado e mentor trágico com a mesma facilidade com que troca do francês para o ucraniano. É quase injusto: Vlad é tão interessante que você passa o filme inteiro pensando “por que não fizeram: Vlad – O Filme?”

O problema é Enzo. Não o ator — Eloy Pohu faz o que pode — mas o personagem. Ele é o pacote completo do “adolescente mimado de cinema”: talento artístico não explorado, namorada irrelevante, crises existenciais patrocinadas pela família rica. Tudo nele parece rascunho. A história seria muito mais interessante se fosse contada do ponto de vista de Vlad, o migrante vulnerável que vira alvo da obsessão de um garoto entediado.

Pelo menos o filme é visualmente deslumbrante. Campillo filma o verão como se quisesse vender pacotes turísticos: pores do sol rosa-alaranjados, Mediterrâneo azul hipnotizante, luz dourada que faz até cimento parecer romântico.

No fim, “Enzo” tenta ser profundo, sensível e devastador, mas acaba parecendo uma versão genérica de um filme muito melhor. É bonito, é bem atuado em alguns momentos, mas falta alma — e falta um protagonista que não pareça estar eternamente em modo “tela travada”.

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