
O Velho Fusca (The Old Beetle, 2025), longa-metragem nacional de comédia-dramática, distribuído pela A2 Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 19 de março de 2026, com classificação indicativa 12 anos e 100 minutos de duração.
Existe uma linha muito fina entre fazer cinema popular e tratar o público como se este tivesse acabado de aprender a amarrar o sapato. “O Velho Fusca”, dirigido por Emiliano Ruschel, tenta ficar do lado certo dessa linha. E fica. Mas, escorrega tanto que parece um fusca tentando subir ladeira molhada: patina, faz barulho e não sai do lugar.
O filme começa com uma animação 2D, música acústica e aquele cheirinho de nostalgia que o filme tenta manter até o fim — como se dissesse “prepare-se, vamos te emocionar… ou pelo menos tentar muito forte”. A proposta declarada do diretor é criar uma narrativa atemporal sobre família, afeto e relações humanas. Na prática, porém, a obra parece mais interessada em te lembrar de como era assistir desenho no SBT do que em desenvolver qualquer coisa de fato profunda.
A trama acompanha Junior, interpretado por Caio Manhente, um jovem sensível que acredita que dirigir um carro legal vai magicamente resolver sua vida. Ele acha que um fusca velho — sim, um fusca — vai transformá-lo de nerd invisível em galã irresistível. O avô, vivido por Tonico Pereira, é o clássico senhor rabugento com coração mole, isolado, amargurado e cheio de convicções rígidas. A relação dos dois é o centro da história, embora o filme tente fingir que o carro é o protagonista. Não é. O fusca é só uma metáfora óbvia demais para a relação quebrada entre eles.
O problema é que o filme não tem interesse real em explorar isso. O roteiro de Bill Labonia opera no modo “piloto automático”: personagens simplificados, conflitos mastigados e diálogos que parecem ter sido escritos por alguém que acha que sutileza é nome de remédio. Junior é o nerd incompreendido. O avô é o velho que odeia tudo. Os pais são figurantes de luxo. O resto do elenco orbita a história como NPCs cumprindo funções pré-programadas. Nada surpreende. Nada aprofunda. Nada arrisca.
A trilha sonora tenta compensar, misturando Péricles com Giovanna Chaves para simbolizar “o velho e o novo”, mas acaba virando um ruído constante. Sempre que uma cena exige emoção, lá vem outra música. Sempre que o silêncio poderia fazer o trabalho pesado, a trilha aparece gritando “não se preocupe, eu resolvo”. O resultado é um filme que vira um grande videoclipe emocional, como se estivesse tentando te convencer de que está sentindo algo que, na verdade, não sente.
A história insiste em focar apenas na relação entre Junior e o avô, mas sem explorar de verdade o que os afastou. O motivo do rompimento familiar é tão frágil que parece ter sido escolhido só para justificar o drama.
No fim, talvez o maior problema seja esse: “O Velho Fusca” ao falar sobre memória, família e reconciliação, não demonstra interesse real em explorar nada disso. E por isso fique a sensação de que como o filme não tinha muito a dizer, achou melhor preencher com música. Com um pouco mais de coragem, esse velho fusca poderia ter acelerado de verdade.
















