O Testamento de Ann Lee (por Peter P. Douglas)

O Testamento de Ann Lee (The Testament Of Ann Lee, 2026), longa-metragem musical estadunidense, distribuído pela Searchlight Pictures, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 19 de março de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 121 minutos de duração.

Enquanto trabalhava em “The World to Come” em 2020, a diretora Mona Fastvold aparentemente decidiu que pesquisar hinos religiosos do norte de Nova York era uma ótima forma de passar o tempo. No meio dessa aventura musicológica, ela tropeçou nas canções dos Shakers e na figura de Mãe Ann Lee — líder espiritual, ícone da devoção e, pelo visto, musa inspiradora de cineastas que gostam de transformar sofrimento em musical. Resultado: nasce “O Testamento de Ann Lee”.

E sim, é um musical. Porque nada diz “drama religioso do século XVIII” como pessoas cantando e dançando enquanto tentam purificar a alma. Daniel Blumberg, vencedor do Oscar, compôs as músicas; Celia Rowlson Hall coreografou tudo; e juntos eles criaram um espetáculo que faz “Vox Lux” (2018) parecer discreto.

Amanda Seyfried — que já cantou ABBA (2 vezes) e já sofreu em “Os Miseráveis” (2012) — agora interpreta Ann, uma jovem que abandona a Igreja Anglicana para se juntar a religião dos Quakers-Shakers em Manchester na Inglaterra. A vida dela é um bingo de desgraças: quatro filhos mortos, internação em hospício, prisão por atrapalhar orações alheias… e, claro, celibato voluntário. Porque se já está ruim, sempre dá para piorar. Grande parte do filme gira em torno da relação dela com o marido Abraham, interpretado por Christopher Abbott, que está mais uma vez no papel de homem sexualmente frustrado — algo que ele já domina com maestria. Aqui, ele está tão ressentido com o voto de castidade da esposa que parece ter ciúmes até de Deus.

O roteiro, escrito pela diretora e por Brady Corbet, segue a cartilha clássica da hagiografia: iluminação, sofrimento, provações, martírio… tudo isso embalado em música. A diferença é que o filme não exige que você acredite em nada — nem na fé, nem na santidade, nem no celibato. Ele só quer que você assista e tente não se perder no meio das danças espirituais.

As músicas de Blumberg giram em torno da voz de Seyfried, que entrega um soprano tão angelical que faz o resto do elenco parecer figurante de coral escolar. Sempre que ela canta, o filme ganha vida; quando outros tentam acompanhar, a coisa desanda um pouco. Mas tudo bem — a obra sabe quem é a estrela.

Tecnicamente, o longa é impecável. A pesquisa histórica é minuciosa, a estética é calculada até o último fio de cabelo, e a direção tenta desesperadamente parecer “cinema do futuro”. Só que aí vem o problema: o filme é maçante. Muito maçante. As músicas se estendem como se o tempo tivesse parado, e a duração parece um teste de resistência espiritual. Se Fastvold tivesse cortado uns 20 minutos de canto extático, talvez o público mainstream não fugisse da sala.

No fim, “O Testamento de Ann Lee” é bonito, bem-feito, artisticamente ambicioso… e cansativo. Um daqueles filmes que você respeita, mas não necessariamente quer rever — a não ser que esteja estudando para virar Shaker.

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