
A Graça (La Grazia, 2025), longa-metragem italiano de drama, codistribuição Mubi e Pandora Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 19 de março de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 132 minutos de duração.
Toni Servillo, esse monumento da atuação italiana, agora interpreta ninguém menos que o Presidente da Itália no novo filme de Paolo Sorrentino — porque, claro, se é para fazer um presidente, que seja com a cara mais sofrida e elegante do cinema europeu. Sorrentino nos leva ao Teatro alla Scala, em Milão, onde o presidente Mariano De Santis é recebido com aplausos tão calorosos que parecem até pagos. A ópera? Não vemos. A política? Também não. O filme basicamente diz: “você queria drama político? Pois vai ficar querendo”.
Descobrimos que De Santis enfrentou seis grandes crises durante seu mandato, todas resolvidas com a serenidade de quem monta um móvel da Tok Stok sem manual. Por isso recebe o apelido de “Concreto Armado”. Agora, aos setenta e poucos anos, viúvo, com dois filhos bem-sucedidos e uma dieta tão triste quanto sua insônia, ele fuma um cigarro por dia como quem saboreia o último prazer permitido pela Constituição. Reza, dorme no meio da oração, não sonha, e vive atormentado por dúvidas existenciais — tudo isso exibido no rosto de Servillo, que consegue transmitir melancolia até olhando para um copo d’água.
Na mesa presidencial, repousam questões “vitais”. Uma delas é a lei da eutanásia, que precisa da assinatura dele. A filha, Dorotea (Anna Ferzetti), jurista renomada, apoia a medida. A opinião pública também. O Vaticano… nem tanto. De Santis resume o dilema com a sutileza de um caminhão: “ou serei chamado de torturador ou de assassino”. Política italiana sendo política italiana.
Outro problema: pedidos de indulto para dois condenados por matar seus cônjuges — casos envolvendo violência doméstica e Alzheimer avançado. Questões importantes, claro, mas nada que supere o verdadeiro drama do presidente: Aurora, o amor da vida dele, morta há oito anos, e a traição que ela cometeu há quarenta. Sim, quarenta anos. O homem resolveu que agora, no fim do mandato, é o momento ideal para revisitar esse trauma. Prioridades.
Depois de resolver crises nacionais com a elegância de um diplomata suíço, De Santis se pergunta se ainda possui “La Grazia” — essa tal graça que Sorrentino adora transformar em conceito cinematográfico.
Sorrentino diz ter se inspirado no “Decálogo de Kieślowski”, mas o resultado é uma obra muito mais “Sorrentino sendo Sorrentino”: existencialista, estilosa, cheia de silêncios significativos e com Servillo carregando tudo nas costas com destreza.
Comparar Mariano De Santis com qualquer político real? Melhor não. A “grazia” dele é tão rara que, se existisse na vida real, já teria virado patrimônio histórico.
















