
O filme chinês, “Wontons de Xangai” (Shanghai Wonton, 2025), dirigido por Wu Tiange, é aquele tipo de filme que chega dizendo “sou uma comédia dramática sensível sobre envelhecer, amar e seguir em frente”, mas na prática, sua duração de 108 minutos, entrega algo mais próximo de “drama temperado com caldo quente e boas intenções escorregadias”.
A história adapta o romance homônimo escrito por Jin Ying e gira em torno de Lao Wang (Zhou Yemang), um engenheiro aposentado que vive preso ao luto e às alucinações da esposa falecida Su Juan (Hong Pan) — que aparece para ele como se fosse uma notificação push emocional. Todo sábado, o filho Xiao Wang (Xu Xiang) aparece para comer wonton e fugir das conversas sobre casamento com a habilidade de um ninja social. Cansado de falar sozinho, Lao Wang decide ir ao famoso Centro de Casamentos do Parque do Povo, onde conhece três figuras que parecem ter saído de um spin‑off de novela: Lin Meiqin (Mao Shanyu), Lao Jin (Chen Guoqing) e Fang (Wang Lin). Com eles, redescobre a vida, o chá da tarde e até um romance tardio.
A produção, claro, faz questão de repetir a palavra “Xangai” como se fosse um mantra. É Xangai no livro, Xangai no roteiro, Xangai nas filmagens, Xangai na equipe — se pudesse, o filme colocaria “Xangai” no nome de todos os personagens também. O roteiro passou por 11 versões, revisões noturnas, páginas reescritas até virar um terço do original e uma pós-produção com dezenas de cortes. Todo esse esforço para entregar… um filme que parece ter sido escrito por alguém que ama Xangai mais do que ama a própria história.
A trama tenta falar de solidão, novas amizades e a relação complicada entre pai e filho, mas a jornada emocional dos dois é tão empolgante quanto um city tour mal planejado. Começa morno, continua morno e termina… morno. A reconciliação acontece graças a uma doença — porque nada une mais uma família no cinema do que um diagnóstico conveniente.
Os atores até tentam dar profundidade ao roteiro, mas fica difícil quando metade dos diálogos é “você não me entende” e a outra metade é “coma, vai te fazer bem”. Lao Wang tem aquele ar de sabedoria amarga, Xiao Wang tem o clássico ressentimento moderno, e juntos formam uma dupla que promete muito mais do que entrega. O resultado é um drama que tenta ser profundo, mas você acaba mais interessado no wonton do que nos conflitos familiares.
No fim, “Wontons de Xangai” é bonito, simpático e cheio de boas intenções, mas tropeça na própria ambição. É o tipo de filme que quer emocionar, mas acaba funcionando melhor como propaganda turística. Ainda assim, vale assistir — nem que seja só para confirmar que Xangai realmente consegue virar protagonista de qualquer coisa, até de um drama familiar servido com massa recheada.
















