Brick, 2025 (por Peter P. Douglas)

O “mistério do quarto fechado” é aquele truque tão antigo que já deveria estar aposentado, vivendo numa fazenda com outros clichês desgastados. Mas não: diretores continuam tratando essa fórmula como se fosse um fetiche secreto do cinema. Tranque meia dúzia de pessoas num espaço apertado, jogue uma ameaça misteriosa e espere que elas se devorem emocionalmente — ou literalmente, dependendo do orçamento. “Cubo” (1997) fez isso com estilo; “Jogos Mortais” fez isso com serras; “Escape Room” fez isso com… bom, com o que deu. A Netflix, sempre atenta ao que já foi feito melhor por outras pessoas, resolveu entrar na brincadeira com “Brick”, um thriller alemão que tenta desesperadamente parecer esperto… eu disse: tenta!

A premissa até parece promissora: Tim (Matthias Schweighöfer) e Liv (Ruby O. Fee), casal (também na vida real) em crise, prestes a se separar, abrem a porta do apartamento e encontram uma parede preta que parece saída de um episódio rejeitado de “Black Mirror”. Nada de corredor, nada de vizinho reclamando do barulho — só uma muralha alienígena que repele metal e, aparentemente, repele também qualquer chance de originalidade. O prédio inteiro está coberto pela coisa, água e internet se foram, e o casal precisa sobreviver com a ajuda de vizinhos que mal conhecem. É quase um reality show, só que sem o prêmio em dinheiro.

O filme até funciona quando o grupo começa a cavar buracos pelos andares como ratos desesperados, tentando mapear o labirinto. O design de produção faz mais pelo filme do que qualquer diálogo, e a câmera do diretor e roteirista Philip Koch tenta parecer ousada enquanto passeia pelos buracos como se estivesse orgulhosa demais do próprio movimento. Mas aí entram os personagens — e é aí que “Brick” desmorona como um prédio mal construído.

Temos o drogado caótico (Frederick Lau), a namorada sensata (Salber Lee Williams), o avô fofinho (Axel Werner), a neta vulnerável (Sira-Anna Faal) e o policial conspiracionista (Murathan Muslu) que fala sobre “OVNIs” com a sutileza de um meme ruim. Cada um deles parece ter sido escrito com meia dúzia de estereótipos e zero paciência. Tim e Liv, supostamente o coração emocional da história, passam boa parte do tempo discutindo como se estivessem em uma sessão de terapia mal roteirizada. A reconciliação deles é tão previsível que você quase consegue ouvir o roteiro bocejando. E quando o filme tenta criar tensão, o máximo que consegue é um suspense com cara de série policial de TV aberta. A violência, que deveria ser o tempero, aparece diluída, tímida.

Para completar, o diretor insiste em cortar para uma mosca zumbindo, presa num copo, como se isso fosse uma metáfora profunda sobre aprisionamento. Na prática, é só mais um lembrete de que até o inseto parece ter mais personalidade que alguns personagens. No fim, “Brick” tenta chamar sua atenção como uma mosca insistente: irrita, faz barulho… e morre rápido.

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