Kill Bill – The Whole Bloody Affair (por Casal Doug Kelly)

Kill Bill: The Whole Bloody Affair (2025), longa-metragem estadunidense de artes-marciais, distribuído pela Paris Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 05 de março de 2026, com classificação indicativa 18 anos e 275 minutos de duração.

Quentin Tarantino, no início dos anos 2000, ainda não era o semideus pop que hoje aparece em qualquer conversa sobre cinema como se tivesse inventado a película. Antes de “Kill Bill”, ele era “apenas” um diretor cult querido por cinéfilos — não o profeta do sangue estilizado que o marketing transformou depois. Foi só quando o “Volume 1” chegou aos cinemas que o público descobriu oficialmente o que acontecia dentro da cabeça dele.

“The Whole Bloody Affair” virou quase uma lenda urbana: todo mundo falava, ninguém via. Essa versão original ficou trancada como se fosse um artefato amaldiçoado, exibida apenas nas sessões privadas do próprio Tarantino — porque, claro, ele é exatamente o tipo de pessoa que teria um cinema particular só para isso.

A história por trás do corte é digna de novela: a produtora Miramax olhou para o filme e disse, basicamente, “Quentin, isso está enorme e violento demais, dá para fazer algo que não traumatize adolescentes?”. Ele, com a diplomacia de quem sabe que não vai ceder de verdade, dividiu o filme em dois e transformou a luta contra os Crazy 88 em preto e branco para tentar suavizar o banho de sangue. Funcionou o suficiente para que “Kill Bill” estreasse em 2003 (com classificação indicativa 16 anos), seguido seis meses depois pela conclusão — uma carta de amor ao kung fu.

E foi assim que, Tarantino ganhou o que queria, o estúdio ganhou o que precisava e o público ganhou dois filmes em vez de um. Eis que finalmente, em 2026, chega aos cinemas para o público em geral: “Kill Bill: The Whole Bloody Affair” — sempre prometido, raramente visto, eternamente comentado.

“A vingança é um prato que se serve frio.” – Provérbio Klingon antigo 

No início do “Volume 1”, essa é a citação que abre o filme e define o tom do que está por vir. Termina com uma grande revelação, insinuando o que aguarda Beatrix quando o “Volume 2” começar. 

“Este filme é dedicado ao mestre cineasta Kinji Fukasaku (1930-2003).”

A dedicatória substituiu a citação original, sugerindo uma mudança de foco da vingança para a homenagem às influências de Tarantino no cinema asiático e no gênero exploitation. Isso indica imediatamente que esta versão definitiva de “Kill Bill” é uma exploração cinematográfica mais profunda do que um simples filme de vingança. Funciona como aquilo que Tarantino sempre quis entregar: um épico coeso, sem interrupções, sem concessões e com a assinatura dele estampada em cada quadro.

A estrutura é parecida com a dos Volumes 1 e 2 separados, claro — ninguém esperava que Tarantino reinventasse o próprio filme do zero — mas há diferenças suficientes para justificar a existência dessa versão como algo que qualquer fã vai querer ver, nem que seja só para dizer que viu “o corte proibido”.

Então, qual é a diferença? 

Há mudanças e acréscimos nos diálogos. Certos personagens, alguns anteriormente sem falas, repentinamente começam a falar, aprofundando as sequências de flashback. Certas coreografias de luta são alteradas, expandidas ou reordenadas. É claro que a abertura com o título do “Volume 2” é completamente removida após a revelação que encerra o “Volume 1”.

Assim como antes, Bill conversa com Sofie, descobrindo as ações da Noiva contra O-Ren Ishii, mas agora a revelação bombástica que ele faz antes dos créditos finais do “Volume 1” é omitida, tornando o momento em que a Noiva finalmente descobre o segredo de Bill ainda mais impactante, não só para ela, mas também para nós, que o descobrimos junto.

Antes de conhecer a montagem original, o final do “Volume 1” parecia funcionar muito bem — quase elegante, até. Saber agora que tal revelação poderia ter sido mais impactante se tivesse sido mantida em segredo até o confronto final entre Beatrix  e Bill faz com que a versão dos volumes seja diluída, como uma consequência infeliz de ter que dividir a história em duas partes. Não chega a arruinar nada, mas definitivamente perde parte do peso que poderia ter tido.

Retrocedendo no tempo com a mesma ousadia narrativa que Tarantino adora, o filme mergulha na trajetória de O‑Ren, revelando suas origens (de quando criança presenciou o abominável assassinato de seus pais), em um glorioso segmento estilo anime, produzido pelo estúdio japonês Production IG, com direção de Kazuto Nakazawa e supervisão do produtor de animação Katsuji Morishita. A sequência não apenas reconta o trauma: ela se estende para mostrar o momento em que O‑Ren completa seu próprio ciclo de vingança, eliminando o homem que matou seu pai, o infame Pretty Riki. Esse retorno ao passado deixa claro que O‑Ren e Beatrix são mais parecidas do que gostariam de admitir. A jornada de O‑Ren lembra lembra a frase de Harvey Dent (Aaron Eckhart) em “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (2008) “Ou você morre como um herói, ou vive o suficiente para se tornar o vilão”.

Agora sem precisar se importar com a classificação indicativa, Tarantino, eleva a violência e o sangue a um nível exponencial. A sequência dos Crazy 88 é inteiramente colorida e apresenta uma coreografia extensa que leva a violência gratuita a extremos. Este é um filme extremamente violento, e isso o torna ainda melhor. E então, é claro, onde o “Volume 1” normalmente terminaria, surge um letreiro de intervalo por quinze minutos antes que o resto da história continue. (Vá ao banheiro nesse momento. Confie em nós.)

Após os longos créditos finais, que reúnem o elenco e a equipe de ambos os volumes em uma grande produção, há uma nova e inédita animação, a segunda parte do “Capítulo 5”, intitulada “O Capítulo Perdido: A Vingança de Yuki”. Ela foi feita no estilo do game Fortnite (Epic Games), o que é curioso, considerando os fãs de Fortnite e os fãs de Kill Bill. Talvez seja uma tentativa de atrair novos fãs, embora, assim como o próprio filme, a animação apresente palavrões e violência excessiva. É verdade que os tiros são feitos para se assemelharem aos disparos de Fortnite, mas a essência permanece. Mesmo assim, por mais estranho que seja, ainda é bastante divertido, especialmente com o retorno de Uma Thurman para dublar a Noiva.

Grande parte da nova montagem incluiu tudo que já tornava os dois volumes espetaculares, mas o que realmente transforma a experiência são os acréscimos — pequenas cenas, personagens recém-adicionados, respirações narrativas — que finalmente soldam o que antes pareciam ser duas histórias estilisticamente diferentes. Os volumes separados, são clássicos e sempre serão. No entanto, tendo assistido a “Kill Bill: The Whole Bloody Affair” , podemos afirmar que a visão definitiva é superior.

A trilha sonora permanece como um personagem à parte — vibrante, marcante, impossível de ignorar. E, apesar da duração extensa, o filme passa com uma leveza surpreendente; há produções de menos de duas horas que parecem muito mais longas. É compreensível que nos anos 2000, a produtora tenha hesitado em lançar um épico de quase cinco horas, mas, depois de duas décadas de espera, finalmente ver “Kill Bill” como uma obra única dá a sensação de que algo foi restaurado ao seu devido lugar.

“Kill Bill: The Whole Bloody Affair” não é apenas uma curiosidade para fãs: é a forma mais completa, mais coerente e mais satisfatória de vivenciar essa história. E, honestamente, é difícil não pensar em colocá-lo entre os melhores do ano — mesmo que tenha levado vinte anos para existir como deveria.

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