
Se “Crash – Estranhos Prazeres, 1996” (aquele filme do Cronenberg sobre gente que acha acidente de carro… estimulante) era a sua praia, então parabéns: você faz parte do público-alvo perfeito de “O Outro Lado” (Quid Pro Quo, 2008), um drama psicológico que basicamente pergunta: “E se existisse um grupo de pessoas perfeitamente saudáveis que sonha em virar deficiente?”
Nick Stahl interpreta um repórter de rádio que usa cadeira de rodas e, como se já não tivesse problemas suficientes, precisa lidar com a presença magnética — e perigosamente obcecada — de Vera Farmiga, que olha para a condição dele como quem olha para um prêmio de loteria. Ela não quer ser como ele… ela quer ser ele. Romântico, não?
“O Outro Lado” é um daqueles pequenos filmes maravilhosos do cinema independente. A história gira em torno de Isaac Knott, um repórter da NPR que vive em Nova York, usa cadeira de rodas desde um acidente na juventude e, aparentemente, não tem o menor problema em se enfiar nas situações mais bizarras possíveis em nome de uma boa pauta. Ele as encontra quando se depara com um grupo de pessoas que sonham em ser paraplégicas. Isaac conhece Fiona (Vera Farmiga) durante um encontro com esse grupo e decide entrevistá-la para entender por que eles querem ser como ele. Ela o introduz em seu mundo e o seduz para o universo dos aspirantes a deficientes.
A obra é aquele tipo de filme que já nasce estranho, mas que claramente tinha potencial para ser ainda mais esquisito — e isso quase soa como uma crítica ao longa por ter sido tímido demais na própria bizarrice. O diretor Carlos Brooks, em seu primeiro longa, tenta vestir o filme com um clima noir clássico, mas perseguindo fetiches psicológicos em vez de criminosos armados. O resultado é um protagonista que se joga de cabeça na tentação com a mesma prudência de alguém que atravessa a rua olhando para o celular.
Isaac é obcecado pela história que acredita que vai transformá-lo na próxima grande estrela do rádio público — porque nada diz “carreira meteórica” como investigar um submundo de pessoas que querem virar deficientes. Mas aí entra Fiona, interpretada por Vera Farmiga com aquela mistura de charme e perigo que faz você pensar: “isso vai dar errado, mas eu quero ver até onde vai”. Ela desmonta as certezas de Isaac com a facilidade de quem troca de roupa, e o filme acompanha essa desconstrução com um prazer quase perverso.
Ao final, “O Outro Lado” abraça a trama com um toque de Hitchcock: intriga, tensão, manipulação psicológica e aquele tipo de reviravolta que faz você pensar “ok, não vi essa vindo… mas talvez devesse”. É um thriller elegante, estranho e deliciosamente incômodo, daqueles que só o cinema independente tem coragem de fazer.
















