
Queens of the Dead (2025), longa-metragem estadunidense de terror queer, distribuído pela Imovision, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 05 de março de 2026, com classificação indicativa 16 anos e 100 minutos de duração.
Algumas semanas — ou meses, porque o tempo na internet é um borrão — começaram a pipocar na nossa caixa de entrada comunicados de imprensa sobre “Queens of the Dead”, dirigido por Tina Romero. Já sabíamos quem ela era graças ao feed do Instagram. Mas, para quem ainda não juntou as peças: ela é filha de George Romero e Christine Forrest. E, sinceramente, não é preciso muito esforço para imaginar o tipo de filme que vem aí quando você junta esse sobrenome com um título desses.
A história se passa em uma festa num galpão no Brooklyn, orgazinada pelo estressado DJ Dre (Katy O’Brien) que tenta manter tudo em pé enquanto o universo conspira para derrubar cada detalhe. A drag queen Yasmine (Dominique Jackson) cancela em cima da hora, os banheiros decidem transbordar como se fosse parte da decoração temática, e Dre ainda precisa lidar com Sam (Jaquel Spivey), o substituto relutante que prometeu ressuscitar seu alter ego “Samonce” — o mesmo que rendeu um prejuízo de milhares de dólares durante um ataque de pânico no palco que o obrigou a aposentar o personagem.
Para completar o cenário, aparece Barry (Quincy Dunn-Baker), o cunhado hétero que veio “consertar” os banheiros, mas aproveita cada segundo para causar confusão com pronomes e qualquer outro assunto que não lhe diz respeito. E, como se a noite já não estivesse suficientemente caótica, Nova York vira o epicentro de um surto zumbi, atraindo para o galpão uma horda de ravers mortos-vivos que seguem a música de Dre como se fosse um chamado espiritual. E não podemos esquecer de mencionar os ratos que fazem participação especial como se fossem parte do elenco.
Longe de tentar se afastar do sobrenome famoso, Tina Romero mergulha de cabeça nas referências ao pai — porque, claro, se você é filha de George Romero, por que não usar o catálogo inteiro? Os zumbis têm as bochechas marcadas e a pele prateada, praticamente um cosplay de Bub, de “Dia dos Mortos” (1985). A clássica fuga de carro de “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968) reaparece, só que agora reimaginada como uma corrida desesperada até um food truck. E, assim como os mortos-vivos de “Despertar dos Mortos” (1978) eram atraídos ao shopping por puro hábito consumista, aqui eles vagam agarrados aos celulares — porque nem a morte impede alguém de checar notificações.
Mas, apesar de toda essa devoção ao legado paterno, a estreia de Tina não chega nem perto da força dos filmes que definiram o gênero. George conseguia equilibrar terror e humor com precisão cirúrgica; Tina, por outro lado, parece ter decidido que sustos são opcionais. O suspense passa longe, e os personagens, embora simpáticos, raramente correm perigo real. Há até uma subtrama envolvendo a esposa grávida de Dre (Riki Lindholme) e uma mulher trans (Eve Lindley) atravessando a cidade, mas o filme trata isso como um lembrete tardio — e sem qualquer ameaça concreta.
Quem espera a violência gráfica exagerada dos filmes de George vai sair decepcionado: quase todas as mortes acontecem fora de cena, como se o orçamento tivesse acabado antes do sangue artificial chegar. “Queens of the Dead” está mais interessado em arrancar risadas, e até consegue algumas. Contudo foge de qualquer sátira social mais afiada — justamente o que tornava os longas de George mais do que simples carnificinas.
Com drag queens, mulheres trans, um encanador hétero e uma lésbica adepta do feminismo radical (Margaret Cho) no mesmo espaço, o cenário estava pronto para um conflito digno de estudo antropológico. Mas o filme olha para tudo isso e decide não fazer absolutamente nada.
Tina Romero parece acreditar que, diante de um apocalipse, todo mundo vira amigo — e até inventa uma regra nova: ninguém precisa ser eliminado imediatamente após ser mordido, porque “você está conosco até não estar mais”. É bonitinho, mas não exatamente o que se espera de um filme de terror.
E a atuação é muito irregular. Temos algumas performances realmente divertidas, junto com outras extremamente apáticas. Há algumas outras performances sólidas que aparecem aqui e ali, mas boa parte do filme apresenta atuações unidimensionais, com diálogos estranhos e zero emoção. Isso seria até engraçado se eu estivesse falando do elenco que interpretou os zumbis, mas não estou.
Há muito tempo dedicado à construção da trama, que acaba se dissipando. Temos um começo muito forte, um pouco de desenvolvimento no meio e, depois disso, mais do mesmo.
No fim, apesar de seus acertos, “Queens of the Dead” encontra em seus erros, algo que o torna bem menos envolvente do que poderia ser. Com tanto material pronto para ser explorado, o filme escolhe o caminho mais seguro — e, ironicamente, o menos valioso.















