
São Paulo S/A – Cópia Restaurada em 4K (2025), longa-metragem nacional de drama, distribuído pela Vitrine Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 26 de fevereiro de 2026, com classificação indicativa 12 anos e 110 minutos de duração.
Apesar de ter chegado à respeitável idade de seis décadas (60 anos) desde seu lançamento em 1965, o restauro em 4K tratou o filme como se fosse uma celebridade vaidosa: ganhou imagem em preto e branco muito mais nítida e um som tão limpo que parece até que nunca sofreu com chiados, estalos ou qualquer outro capricho da tecnologia analógica.
A trama se passa em São Paulo, no momento da euforia desenvolvimentista provocada pela instalação de indústrias automobilísticas estrangeiras no Brasil, entre 1957 e 1961, e conta a história de Carlos (Walmor Chagas), um jovem da classe média paulistana, que além de ingressar numa grande empresa, encontra tempo para pular na cama de Hilda (Ana Esmeralda) e Ana (Darlene Glória). Depois de um tempo, ele aceita um cargo numa fábrica de auto-peças, da qual torna-se gerente, e cujo patrão Arturo (Otello Zeloni) é sonegador de impostos e tem várias amantes. A certa altura, casado com Luciana (Eva Wilma), ele é um chefe de família, que trabalha muito, ganha bem, mas vive insatisfeito. Sem um projeto de vida ou perspectivas para mudar a condição que rejeita, só lhe resta fugir.
O filme “São Paulo, Sociedade Anônima” é aquele tipo de obra que, se fosse uma pessoa, chegaria na sua casa, abriria sua geladeira, comeria seu pudim e ainda perguntaria por que você não comprou mais. Luís Sérgio Person entrega um retrato tão honesto — e tão malcriado — da modernização paulistana dos anos 60 que a gente quase sente o cheiro de gasolina, suor e frustração masculina evaporando da tela.
A trajetória de Carlos, o protagonista, é praticamente um tutorial de como destruir a própria sanidade seguindo à risca o manual da classe média emergente: trabalhar demais, desejar o que não precisa, trair quem não merece e fingir que está tudo bem porque a propaganda disse que sucesso é ter carro, casa, esposa e um vazio existencial do tamanho do Viaduto do Chá. Ele é o tipo de sujeito que, mesmo ganhando promoção, continua com aquela cara de quem perdeu o ônibus e a dignidade ao mesmo tempo.
O filme mostra uma São Paulo que se acha moderníssima — carros, viadutos, telefone, televisão — mas que esconde seus trabalhadores não registrados no banheiro quando chega a fiscalização. É a modernidade brasileira em sua forma mais pura: um pé no futuro, outro atolado no barro, e ambos fingindo que estão dançando twist. A cidade cresce, mas a ética fica estacionada em segunda marcha.
Person não economiza ironia ao mostrar que, enquanto a classe média sonha com o American Way of Life, o que ela realmente ganha é o Brazilian Way of Surviving: corrupção institucionalizada, exploração trabalhista e uma sensação permanente de que a vida prometeu mais do que entregou. Carlos tenta fugir, claro — quem nunca? — mas a cidade o puxa de volta como aquele amigo inconveniente que sempre aparece quando você está quase indo embora da festa.
O mais divertido (e trágico) é perceber como o filme continua atual. A alienação, o consumismo, a busca por um sentido que nunca chega… tudo isso poderia estar num feed de rede social hoje. A diferença é que, nos anos 60, ninguém tinha a desculpa de culpar o algoritmo.
No fim, São Paulo S/A é uma obra que ri da nossa cara enquanto nos mostra o espelho. E a gente ri de volta, meio sem graça, porque reconhece cada detalhe. Person não cria monstros; ele apenas revela que eles já estavam lá — escondidos entre as engrenagens da cidade, nos escritórios, nas famílias, e principalmente dentro de cada Carlos que acreditou que felicidade vinha no porta-luvas de um carro novo.
É um filme que continua dizendo, com a maior ironia possível: “Recomeçar? Claro. Mas boa sorte tentando fugir da história.”














