A Última Ceia (por Peter P. Douglas)

A Última Ceia (The Last Supper, 2025), longa-metragem bíblico estadunidense, distribuído pela Imagem Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 05 de fevereiro de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 114 minutos de duração.

Vivemos uma fase empolgante para quem aprecia filmes bíblicos, com diversas produções recém‑lançadas ou prestes a chegar às telas. Eu, porém, não faço parte desse grupo e, por isso, não esperava muito de “A Última Ceia”, dirigido pelo italiano Mauro Borrelli e com produção executiva do astro da música cristã Chris Tomlin. Mas me surpreendi: o filme realmente merece ser visto no cinema, se possível.

Jesus (Jamie Ward) prega à beira‑mar quando é avisado que a tarde já caiu e, diante do cansaço da multidão, realiza o milagre da multiplicação, ao alimentar milhares de pessoas com apenas uma cesta cheia de pães e peixes. Judas Iscariotes, ao testemunhar o feito, enxerga ali a chance de aproximá‑lo de figuras politicamente influentes. Jesus, porém, rejeita a ideia, deixando Judas novamente perplexo quanto aos seus reais propósitos.

O filme então avança para a semana que antecede a última refeição de Páscoa que Jesus celebrará com seus discípulos. Diferentemente de outras obras que abordam os últimos momentos de Cristo, esta se concentra quase exclusivamente na Última Ceia, que ocupa mais da metade da duração.

Narrado principalmente a partir dos pontos de vista de Judas (Robert Knepper), Pedro (James Oliver Wheatley) e João (Charlie MacGechan), o filme usa de licença artística para criar diálogos não encontrados nos Evangelhos, mas sem se desviar muito. Em sua maior parte, não altera a narrativa bíblica. Simplesmente expande a história, abordando alguns pontos e preenchendo as lacunas.

Cinematograficamente, não espere um “A Paixão de Cristo” (2004) de Mel Gibson. Mas, embora a atuação de Jamie Ward como Jesus não seja totalmente convincente, as representações de Robert Knepper como Judas e James Oliver Wheatley como Pedro são.

Pedro expressa preocupação com Judas, mas ainda o admira, referindo-se a ele como o mais inteligente entre eles todos. Seu palpite está correto, pois será por meio de Judas que Jesus será entregue ao sumo sacerdote Caifás (James Faulkner) para um julgamento simulado que o condenará à morte.

Na época de Jesus, a refeição da Páscoa era um jantar litúrgico que havia evoluído para uma festa que durava a noite toda e envolvia uma cerimônia complexa, o Seder da Páscoa, na qual os diferentes símbolos (o pão, o vinho, as ervas amargas) tornavam visível a intervenção de Deus na vida de seu povo.

Jesus seguiu o ritual da Páscoa judaica, mas alterou as orações e transformou o significado dos seus símbolos. Para ilustrar esse processo de transformação, o filme imagina Jesus e seus discípulos sendo acolhidos por uma grande família.

A família celebra a Páscoa tradicional em um cômodo no térreo, enquanto Jesus e seus discípulos jantam no cenáculo. O filme então alterna cenas entre os dois cômodos.

O contraste entre a ceia de Jesus com seus discípulos e a família no andar de baixo compartilhando uma refeição pascal é uma dramatização singular que eu nunca tinha visto e foi um destaque inesperado.

A primeira e segunda partes do jantar da Páscoa judaica focavam na memória da escravidão. No cômodo inferior, o pai distribuía as ervas amargas e explicava que elas simbolizavam a amargura da escravidão, juntamente com o pão ázimo, símbolo da partida apressada do Egito.

No cenáculo, Jesus faz o mesmo sinal, mas suas palavras são diferentes: “Este é o meu corpo, que será entregue por vós”. O pão não é mais um sinal da fuga do Egito, mas sim o seu corpo oferecido na cruz para a salvação da humanidade.

Na terceira etapa do Seder da Páscoa, o celebrante levantava um cálice de vinho e proclamava uma bênção a Deus por todas as Suas obras, destacando sobretudo a aliança estabelecida com o povo de Israel. Jesus também distribui o vinho aos seus discípulos, mas transforma o significado do sinal: o cálice que é derramado por vocês é a nova aliança no meu sangue.

O filme também consegue conectar de forma eficaz a Última Ceia e a Ressurreição. A paixão de Cristo (o conjunto de sofrimentos: prisão, julgamento, flagelação, crucificação e morte de Jesus) aparece apenas em breves flashbacks, o que reforça a intenção do diretor de manter o foco na ceia e em seu significado transformador.

Enquanto franquias de Hollywood como “Star Wars” e “Marvel” estão em declínio, as adaptações bíblicas estão em ascensão. “A Última Ceia”, talvez não revolucione o gênero, mas tem seu valor. A familiaridade pode gerar apatia, e há poder em abordar o evangelho a partir de perspectivas sutilmente diferentes. Numa época em que filmes como “Marty Supreme” e “O Agente Secreto” são celebrados como os melhores que Hollywood e o resto do mundo tem a oferecer, ter um pouco mais de Jesus em nosso entretenimento não é algo ruim.

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