Dois Procuradores (por Peter P. Douglas)

Dois Procuradores (Two Prosecutors AKA Zwei Staatsanwälte AKA Deux Procureurs, 2025), longa-metragem dramático, coprodução Alemanha, França e Holanda, distribuído pela Retrato Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 05 de fevereiro de 2026, com classificação indicativa 12 anos e 117 minutos de duração.

“Dois Procuradores” é um filme que entende perfeitamente o peso do que retrata — e, justamente por isso, escolhe não mostrar tudo. A violência não está no que vemos, mas no que sabemos que está acontecendo fora do quadro. Em vez de tentar reproduzir a brutalidade absoluta do terror stalinista da antiga União Soviética (1937) – algo que seria praticamente impossível de assistir – o diretor Sergei Loznitsa (que adapta o romance escrito por Georgy Demidov) aposta em um ritmo lento, em ações reduzidas ao mínimo e em uma atmosfera que convida o espectador a preencher os espaços vazios com a própria imaginação. O resultado é uma obra pequena em escala, mas enorme em impacto.

A história começa com um prisioneiro à beira do colapso físico, trancado em uma cela miserável. Ele recebe um único fósforo para queimar cartas escritas por outros detentos — pedidos desesperados de ajuda. Entre elas, encontra uma mensagem escrita com sangue, implorando para que alguém do Ministério Público o visite. Esse bilhete improvável chega às mãos do novo promotor, Kornev, interpretado por Alexander Kuznetsov. Ele sabe que qualquer passo em falso pode custar sua vida, mas decide seguir adiante.

A partir daí, o filme mergulha em um ambiente onde cada gesto é observado, cada palavra pode ser interpretada como ameaça e cada pessoa parece carregar um medo silencioso. A cena em que uma mulher deixa cair uma pasta de papéis e ninguém ousa ajudá‑la resume bem esse clima: a paralisia coletiva diante da possibilidade de ser mal interpretado. Até mesmo um gole de vodca compartilhado em um trem carrega uma tensão oculta.

Quando Kornev finalmente encontra Stepniak (Alexander Filippenko), o prisioneiro que escreveu o bilhete, a situação se torna ainda mais perturbadora. Stepniak revela sinais claros de tortura e insiste que a NKVD local foi infiltrada por inimigos do Estado — afinal, segundo ele, Stalin jamais permitiria tais atrocidades. A lógica distorcida do regime é exposta sem que o filme precise levantar a voz. A missão de Kornev, então, é seguir para Moscou e relatar tudo ao procurador-geral Vyshynsky (Anatoly Beliy), figura histórica conhecida pela frase: “Me deem um homem e eu encontrarei o crime”.

Loznitsa conduz essa jornada com uma calma quase cruel. A fotografia de Oleg Mutu é serena, mas nunca tranquilizadora. A espera domina tudo: salas lotadas onde ninguém fala, corredores onde o silêncio pesa mais do que qualquer grito, viagens de trem interrompidas por um veterano de guerra com perna de pau (também interpretado por Alexander Filippenko) que insiste em contar, repetidamente, o dia em que encontrou Lenin. Esses momentos reforçam a sensação de tensão a espera de que algo ruim aconteça.

O contexto político dos envolvidos na produção também adiciona um significado extra. Loznitsa, ucraniano de origem bielorrussa, tem enfrentado críticas por não aderir a boicotes a filmes russos. Kuznetsov se posicionou contra a guerra. Filippenko, outrora celebrado na Rússia, hoje vive exilado na Lituânia por sua oposição aberta ao conflito. Há coragem dentro e fora da tela.

Em geral, “Dois Procuradores” transforma o insuportável em algo possível de encarar. Não porque suaviza a realidade, mas porque a apresenta de forma que o espectador consiga absorver sem se perder no horror absoluto. O filme não tenta ensinar uma lição nova — apenas lembra que certas tragédias continuam se repetindo, às vezes mais perto do que gostaríamos de admitir. E, diante disso, qualquer exagero seria desnecessário.

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