A Voz de Hind Rajab (por Peter P. Douglas)

A Voz de Hind Rajab (The Voice of Hind Rajab, 2025), longa-metragem dramático francês, distribuído pela Synapse Distribution, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 29 de janeiro de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 89 minutos de duração.

Embora o serviço independente de ambulâncias da Cruz Vermelha Palestina ainda consiga atuar para aliviar a crise humanitária em Gaza, sob bombardeio israelense, “A Voz de Hind Rajab” expõe de forma contundente a sensação de impotência que todos compartilhamos ao acompanhar, à distância e pelas telas, uma tragédia que não podemos impedir.

A diretora tunisiana Kaouther Ben Hania amplia a abordagem de reconstituições dramáticas já explorada em “As 4 Filhas de Olfa” (2023), unindo a gravação real da ligação feita pela menina de seis anos, Hind Rajab – para a organização de voluntários do Crescente Vermelho – a uma dramatização intensa com atores profissionais que interpretam os socorristas empenhados em salvá-la.

A morte de Rajab, depois de permanecer presa em um carro destruído sob os corpos de seus familiares, tornou-se um dos episódios mais marcantes e dolorosos dos primeiros meses da ofensiva israelense contra Gaza, cuja devastação começou após os ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023.

O áudio de 70 minutos recuperado de sua ligação, exibido no filme com o nome do arquivo .wav sobreposto à forma de onda enquanto toca, serve como espinha dorsal da obra concisa, porém profundamente emotiva, de Ben Hania. Esse material real se entrelaça com as cenas roteirizadas de maneira fluida, embora provoque um desconforto inevitável sobre os limites de seu uso. Diante de um tema tão extremo, seria compreensível abrir mão de sutilezas dramáticas, ainda assim, o apelo emocional direto que Ben Hania emprega é mais incisivo — e talvez mais manipulador — do que muitos cineastas que tratam desse assunto estariam dispostos a adotar.

Apesar dos fatos reais serem profundamente perturbadores — e de o material em áudio e as imagens das consequências terem circulado amplamente e com razão nas redes sociais — o grande mérito de Ben Hania está em organizar os acontecimentos de forma que compreendamos sua progressão temporal. Ela constrói tensão mesmo quando já conhecemos o desfecho trágico, acompanhando o emocionalmente abalado Omar (Motaz Malhees), que primeiro atende a ligação da irmã de Rajab e, depois, a da própria menina.

O que deveria ser uma simples operação de busca e resgate torna-se quase impossível devido à condição permanente do norte de Gaza como zona de guerra. A atuação dessa organização independente — que funciona à margem da infraestrutura política local — depende de uma cadeia exaustiva de autorizações burocráticas, enquanto o supervisor Mahdi (Amer Hlehel) é obrigado a decidir, na prática, quais vidas poderá tentar salvar, ao mesmo tempo em que vê sua frota de ambulâncias diminuir dia após dia.

Por mais desconfortável que seja fazer comparações cinematográficas, “A Voz de Hind Rajab” segue a linha de relatos recentes e concisos de resgates e atos de bravura heroica por parte dos serviços de emergência, embora obviamente vá além ao incluir um registro real do evento (e ocasionais cortes para as pessoas reais que os atores interpretam), criando uma conexão ainda maior com a “realidade”, ainda que, de forma um tanto desajeitada, torne a atuação e o roteiro mais exagerados e melodramáticos.

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