
A Cronologia da Água (The Chronology of Water, 2024), longa-metragem dramático, coprodução francesa e estadunidense, distribuído pela Filmes do Estação, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 05 de fevereiro de 2026, com classificação indicativa 18 anos e 128 minutos de duração.
A adaptação dirigida por Kristen Stewart (que garantiu os direitos da obra há quase uma década, começando a escrever o roteiro logo em seguida) parte do livro de Lidia Yuknavitch e segue a trajetória de Lidia desde a infância marcada por abusos até a fase adulta, quando encontra no esporte e na escrita uma forma de seguir adiante. O filme é dividido em cinco capítulos com formatos peculiares, que alternam momentos da juventude, passagens ligadas ao treinamento de natação e episódios que revelam relações familiares tensas, sempre retornando à maneira como a protagonista tenta reorganizar a própria memória.
Stewart já havia dirigido curtas, mas este é seu primeiro longa, resultado de um interesse antigo por projetos que exploram percepções fragmentadas e experiências internas, algo que ela vinha desenvolvendo ao trabalhar com cineastas como Oliver Assayas e David Cronenberg. Essa estreia amplia esse percurso, assumindo uma abordagem que abraça a memória como algo irregular e difícil de ordenar.
O elenco é liderado por Imogen Poots, que interpreta Lidia Yuknavitch. Thora Birch vive Claudia, a irmã; Susannah Flood interpreta Dorothy, a mãe; Michael Epp assume o papel do pai; Jim Belushi aparece como Ken Kesey; Tom Sturridge interpreta Devin; Kim Gordon surge como fotógrafa; Earl Cave interpreta Phillip; e Esmé Creed-Miles também integra o grupo.
A produção aposta em uma estrutura que alterna tempos e sensações, usando fragmentos para compor a trajetória da protagonista. Há um esforço claro em traduzir a memória como algo que surge em flashes, sem ordem fixa, o que cria uma experiência que depende da disposição do espectador em acompanhar essas quebras. A fotografia em 16 mm reforça essa proposta, com imagens granuladas que remetem a lembranças difíceis de organizar.
O trabalho de Poots se destaca pela forma como ela atravessa diferentes fases da personagem sem buscar uniformidade artificial entre elas. A interpretação transmite cansaço, desejo, confusão e momentos de impulso, sempre de maneira física e direta, o que combina com o modo como Stewart estrutura o filme.
No papel, parece uma adaptação de memórias bastante comum, que se apoiaria em apelos emocionais fáceis para sustentar a narrativa. Em vez disso, o filme se apresenta como uma obra que rejeita as expectativas daqueles que poderiam menosprezar uma atriz assumindo a direção.
A diretora assume riscos ao evitar uma linha cronológica convencional e ao apostar em cortes bruscos, o que pode atrair quem aprecia experimentações formais. Ao mesmo tempo, essa escolha (assim como, a linguagem muitas vezes utilizada) pode afastar quem busca uma condução mais linear. Ainda assim, o resultado revela uma diretora interessada em explorar formas menos tradicionais de contar uma história, confiando na força da protagonista e na intensidade das experiências que ela atravessa.










