
Embaixo da Luz de Neon (Come See Me in the Good Light, 2025), longa-metragem documental estadunidense, distribuído no streaming Apple TV+, com classificação indicativa 14 anos e 104 minutos de duração.
Ryan White produz um documentário, ao mesmo tempo leve e arrebatador, que acompanha a poeta não-binária Andrea Gibson em sua dolorosa e corajosa luta contra o câncer de ovário. Andrea e sua companheira Megan Falley (também poeta), mostram os momentos de angústia e a dureza da doença, mas também a força luminosa da arte, com otimismo e vigor.
As protagonistas, sempre articuladas e carismáticas, ajudam a criar um clima acolhedor que poderia despertar empatia até mesmo em espectadores menos abertos. E, como acontece com frequência no subgênero dos “documentários sobre câncer”, o rumo da doença acaba inevitavelmente se tornando parte do drama, algo que o filme aborda com delicadeza.
Embora tenha nascido no leste do Maine, Gibson se tornou uma presença artística central em Boulder, Colorado, onde atua há mais de duas décadas. A escritora de 48 anos, ganhou notoriedade como artista ao recitar poemas, capaz de lotar casas de shows de rock com suas reflexões apaixonadas, porém acessíveis, sobre gênero, política e sociedade. Gibson costuma definir seu próprio trabalho como “poesia que você não precisa de um diploma para entender”, e essa combinação de consciência social e franqueza, somada à sua androginia carismática, constrói uma persona de palco que sua companheira (de 35 anos) descreve como um “James Dean gay”.
Mesmo enfrentando uma inflamação na garganta (que quase a fez perder a voz) provocada pelos efeitos colaterais da quimioterapia, Gibson entrega uma performance sincera, prova de sua capacidade singular de se conectar com o público, seja no palco declamando poesia ou diante da câmera de White. A escolha da poetisa para o projeto, em sua maior parte improvisado, foi apropriada pela produtora Tig Notaro (conhecida por sua trajetória no stand‑up comedy), que aparece brevemente no desfecho do filme.
“Se eu morrer, a Meg vai precisar muito do meu apoio”, diz Gibson, já debilitada, em um dos muitos comentários agridoce dirigidos à equipe de White. Fonte inesgotável de romance e comédia brilhantemente sombrios, Gibson e Falley, usam o riso para suportar tratamentos oncológicos, planos cancelados e o peso crescente de um possível luto. As eloquentes amantes convidam o público a conhecer um relacionamento queer autêntico, encantador e, por vezes, silenciosamente devastador — ainda que apenas pela impressão de que Gibson e Falley estão verdadeiramente e profundamente apaixonadas.
Falley, em um retrato da vida real, vive o papel de companheira assustada, dividida entre o impulso de cuidar e o medo constante do que pode acontecer. É um arco emocional com o qual muitas pessoas se reconhecem, independentemente da orientação sexual.
Ao mesmo tempo, Gibson revisita sua própria história em longas entrevistas individuais, refletindo sobre a ironia de ter enfrentado anos de depressão antes de receber o diagnóstico de câncer de ovário em 2021. Grande parte do documentário acompanha sua tentativa de retornar aos palcos, mas o processo de recuperação se revela muito mais difícil do que Gibson ou Falley imaginavam.
Deixando de lado a vaidade física e até mesmo recusando-se a corrigir estranhos sobre seus pronomes não-binários, Gibson se distancia da identidade diante de uma doença devastadora e transformadora. Essa mudança emocional se torna evidente através da expressiva narrativa de White. Embora imperfeita, a apresentação que o cineasta faz das várias qualidades transmutáveis do câncer, por meio do legado criativo de Gibson e de sua inspiradora parceria de vida, é eficaz. Tão eficaz que supera a duração excessiva do documentário e a tensão por vezes inconsistente.
A produção inclui uma música original (“Salt Then Sour Then Sweet”) composta por Gibson em parceria com Sara Bareilles e Brandi Carlile. Importante dizer que a poetisa assistiu a primeira exibição do filme nos cinemas.
Apesar de não ser mencionado, Andrea Gibson morreu poucos meses após a conclusão do documentário, aos 49 anos. A morte foi anunciada em julho de 2025, por Megan, nas redes sociais. Segundo o comunicado, Gibson faleceu em sua casa, em Boulder, no Colorado, EUA, cercada por sua esposa, quatro ex-namoradas, seus pais, dezenas de amigos e seus três cachorros.











