Ato Noturno (por Peter P. Douglas)

Ato Noturno (Night Stage, 2025), longa-metragem nacional de suspense erótico, distribuído pela Vitrine Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 15 de janeiro de 2026, com classificação indicativa 18 anos e 119 minutos de duração.

Alguns filmes conquistam pela estética, enquanto outros, pela profundidade com que encaram suas verdades. “Ato Noturno”, novo trabalho dos brasileiros Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, é raro justamente por unir essas duas forças. É um longa sedutor (com ângulos de câmera e suspense à la Hitchcock), elegante, mas também afiado ao examinar ambição, visibilidade e o preço da autopreservação em um mundo que obriga pessoas queer a renegociar suas identidades o tempo todo.

A trama pode ser dividida em duas frentes: na primeira, estão dois atores que dividem não apenas um apartamento, mas também o palco: Matias (Gabriel Faryas), inquieto e transparente, e Fabio (Henrique Barreira), reservado e enigmático. A peça que encenam termina sempre da mesma forma: um personagem empurra o outro de uma plataforma antes de um monólogo final. A diretora (Larissa Sanguiné) exige que esse desfecho mude a cada apresentação, um jogo de improviso que se intensifica conforme a tensão e o desejo entre os dois transborda da vida real para a ficção.

O conflito se instala quando Fabio é chamado para uma audição de uma grande série de TV. Tomado pela inveja e pela ambição, Matias arma um plano para ocupar o lugar do colega — mesmo tendo sido ignorado pela diretora de elenco (Kaya Rodrigues). Futuramente, contra todas as expectativas, ele consegue o papel. Mas o sucesso vem com um preço: os produtores exigem que ele apague qualquer traço público de sua identidade queer, desapareça das redes sociais e adote uma persona heteronormativa, moldada para o público das novelas. O filme trata essa imposição não como dilema moral, mas como uma prática comum enfrentada por artistas queer que tentam entrar no mainstream.

Paralelamente, a vida pessoal de Matias se torna ainda mais turbulenta. Um encontro casual com Rafael (Cirillo Luna), um ruivo atraente e carismático, começa como uma aventura impulsiva e logo se transforma em obsessão. O sexo é intenso, arriscado, muitas vezes em espaços públicos — e essa adrenalina alimenta a conexão entre eles. A grande revelação: Rafael é um político promissor, prestes a disputar a prefeitura. A relação entre os dois se torna a segunda frente da trama, contrastando entre segredo e exposição.

As atuações do elenco de apoio são ótimas, mas as interpretações dos três protagonistas podem ser classificadas como acima da média. Henrique Barreira cria um Fabio cuja presença domina a narrativa mesmo quando não está em cena. Gabriel Faryas entrega uma performance que equilibra fragilidade e ambição feroz. Sua química com Cirillo Luna é incendiária — as cenas íntimas entre os dois são intensas, perigosas e filmadas sem pudor, resultando em alguns dos momentos mais crus do cinema queer recente.

O que realmente distingue o filme é sua recusa em se apoiar em clichês de romance proibido ou melodrama teatral. Matzembacher e Reolon estão interessados nas contradições da visibilidade queer. O longa reconhece que a sociedade parece mais aberta — mas apenas até certo limite. Como diz um personagem: “As pessoas não ligam mais se alguém é gay. Mas sexo em público? Isso é outra história.” O longa questiona se queeridade e subversão são inseparáveis. Será que o perigo faz parte do desejo? E qual é o custo de se adaptar para caber em moldes normativos?

Os únicos pontos que considero prejudiciais à obra dizem respeito à sua duração, que se estende além do necessário e acaba comprometendo o ritmo. Além disso, o excesso de cenas de cunho sexual também pesa contra o filme. Não se trata de moralismo, mas de constatação: muitas dessas sequências são repetitivas e pouco acrescentam à narrativa, especialmente por não envolverem diretamente os protagonistas.

No fim, “Ato Noturno” não é apenas um drama sobre atores ou amantes enredados em mentiras. É uma reflexão sobre o espetáculo da vida pública e sobre o equilíbrio impossível exigido de pessoas queer que tentam prosperar em sistemas moldados pela conformidade. Uma obra ousada sobre risco, ambição e o perigoso encanto de viver como se cada gesto fosse uma performance — no palco e fora dele.

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