
Transamazônia (Transamazonia, 2024), longa-metragem dramático, coprodução internacional, distribuído pela Filmes do Estação, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir de 08 de janeiro de 2026, com classificação indicativa 14 anos e 112 minutos de duração.
Uma menina chamada Rebecca sobrevive milagrosamente a um acidente de avião. Nove anos depois, seu pai – o missionário americano Lawrence (Jeremy Xido) – e Rebecca (agora adolescente, interpretada por Helena Zengel) estão no centro de uma pequena comunidade onde a menina é considerada uma curandeira milagrosa. Sua fama parece se espalhar, mas quando madeireiros ilegais invadem as terras dos indígenas que eles evangelizam, as coisas começam a dar errado. Essa é a premissa do mais recente longa-metragem da diretora sulafricana Pia Marais.
Infelizmente, o ponto fraco deste filme é o roteiro. Há diversas incoerências evidentes que levam o espectador a questionar a credibilidade de toda a história. Para começar, parece surreal que, mesmo investigando seu passado e tendo acesso irrestrito à internet, Rebecca nunca tenha buscado mais informações sobre sua falecida mãe ou sobre o acidente de avião. Seu pai inicialmente parece não falar português – suas palavras são interpretadas por seu braço direito –, mas, mais tarde no filme, ele demonstra ser fluente. No entanto, quando confronta os indígenas que protestam contra o desmatamento de suas terras, ele fala com eles em português por um tempo antes de voltar ao inglês, o que dificilmente será compreendido pela outra parte. Os pesadelos recorrentes de Rebecca, nos quais partes de seu corpo estão cobertas de formigas, também carecem de desenvolvimento. E há muitos outros exemplos que nos impedem de compreender plenamente as motivações dos dois personagens principais – em particular, as do pai de Rebecca. O resultado é que o público pode se sentir desorientado, com muitas perguntas sem resposta.
Em um aspecto positivo, tecnicamente falando, o filme é magistralmente produzido e visualmente fascinante, embora a cinematografia de Mathieu de Montgrand pareça, por vezes, pertencer a uma narrativa muito mais mística e sobrenatural do que aquela que o filme de Marais acaba por ser. Algo semelhante pode ser dito da trilha sonora de Lim Giong, que é certamente misteriosa e envolvente, mas está atrelada a um enredo pouco convincente.
Além disso, o elenco principal também faz um bom trabalho, apesar da evidente falta de desenvolvimento dos personagens. Helena Zengel é magnética, e Jeremy Xido possui o físico ideal para o papel de um homem perturbado que gradualmente perde a confiança e o contato com a realidade. Enquanto isso, o talento de Sabine Timoteo não é totalmente explorado, e pode-se questionar por que uma atriz suíça seria a mais indicada para interpretar uma enfermeira local trabalhando em algum lugar da floresta amazônica.
A impressão geral é de um roteiro – e de um filme – que recebeu contribuições muito diversas e acabou em sua forma atual como resultado de um compromisso entre diferentes partes. O que se perde no processo, no entanto, é uma visão clara que teria mantido todos esses elementos ambiciosos unidos, formando uma narrativa mais envolvente e inteligível.















