
Anna Karenina – A História de Vronsky (Anna Karenina: Istoriya Vronskogo, 2017), dirigido por Karen Shakhnazarov, propõe, em seus 138 minutos de duração, uma releitura do romance de Tolstói ao deslocar o foco para o conde Vronsky e seu reencontro com o filho de Anna, Sergey Karenin, durante a guerra russo-japonesa (1904).
O filme começa com Sergey como médico militar, cuidando de feridos em um hospital de campanha. Ao descobrir que Vronsky está entre os pacientes, ele decide confrontá-lo sobre o passado. A conversa entre os dois serve como ponto de partida para uma série de lembranças que reconstroem os acontecimentos que levaram à morte de Anna. O tempo se alterna entre o presente da guerra e o passado da aristocracia russa, criando uma estrutura que se apoia em memórias e confissões.
A escolha de dividir o filme entre o drama pessoal e o conflito bélico dá ao enredo uma amplitude que vai além do romance original. Enquanto o relacionamento entre Anna e Vronsky é revisitado com detalhes, o contexto da guerra traz outra camada de tensão. Vronsky, agora mais velho, tenta lidar com os fantasmas do passado enquanto enfrenta os desafios do presente. Sergey, por sua vez, busca entender a mãe que perdeu, sem saber se encontrará respostas ou apenas versões.
O filme adapta não só o romance de Tolstói, mas também o conto “Notas de um médico sobre a guerra russo-japonesa”, de Vikent Veresaeu. Essa fusão de fontes literárias permite que o diretor explore diferentes aspectos da sociedade russa: os salões aristocráticos, as competições de hipismo, os bailes e os campos de batalha. A transição entre esses mundos é feita com fluidez, sem que um se sobreponha ao outro.
Anna, interpretada por Elizaveta Boyarskaya, aparece como uma mulher dividida entre o desejo e o dever. Sua relação com Vronsky é marcada por momentos de paixão e de ruptura. Vronsky, vivido por Maksim Matveev, é mostrado com mais ambiguidade, especialmente quando confrontado por Sergey. A troca entre os dois personagens revela ressentimentos, dúvidas e uma tentativa de compreender o que ficou para trás.
A produção se destaca por sua ambientação histórica, figurinos e cenários que recriam o período com precisão. A trilha sonora de Yuri Poteenko reforça os sentimentos dos personagens sem se tornar invasiva. O ritmo é pausado, permitindo que cada cena se desenvolva com tempo suficiente para que os diálogos ganhem peso.
Em resumo, “Anna Karenina – A História de Vronsky” não busca competir com outras adaptações do romance. Ao escolher um ponto de vista diferente, o filme propõe uma reflexão sobre memória, culpa e o impacto das escolhas feitas décadas antes. A guerra serve como espelho para os conflitos internos dos personagens, e o reencontro entre Sergey e Vronsky se torna um acerto de contas que não depende de verdades absolutas.













