Maldito Modligiani (por Peter P. Douglas)

Maldito Modigliani (Maverick Modigliani AKA Maledetto Modigliani, 2020), longa-metragem documental francês, distribuído pela Autoral Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 13 de novembro de 2025, com classificação indicativa 14 anos e 97 minutos de duração.

O documentário dirigido por Valeria Parisi parte da voz de Jeanne Hébuterne, companheira do artista (cujo destino ficou tragicamente ligado ao dele) que conduz a história como se estivesse escrevendo uma carta. Essa escolha dá ao filme um tom mais pessoal, sem transformar a vida do pintor em uma sequência de datas e fatos. Jeanne fala como quem ainda tenta entender o homem que amou, e isso abre espaço para que o público também se aproxime sem a obrigação de saber tudo.

O que se propõe é revisitar a breve e tumultuada trajetória de Amedeo Modigliani, um artista que atingiu o status de mito após a morte. Opta-se por abordar a vida do pintor, falecido em 1920, um século após seu desaparecimento, com o intuito de ir além da figura boêmia e do clichê do artista amaldiçoado.

O filme faz um percurso geográfico e artístico, começando em sua cidade natal, Livorno, e seguindo até Paris, o epicentro da modernidade onde sua lenda se formou. Essa viagem é feita por meio de material de arquivo, fotografias de época e, o que é fundamental, as obras do artista.

O acerto do documentário reside na maneira como utiliza especialistas e historiadores de arte, como Marc Restellini, para contextualizar sua produção, sem transformar o filme em uma aula. Isso permite que o espectador se aproxime das características distintivas de sua pintura – os pescoços alongados, os rostos esquemáticos, a nudez. Há uma tentativa de mostrar não só o artista, mas também o homem que viveu entre dores físicas, amores intensos e uma busca constante por reconhecimento.

Um dos trechos mais curiosos é o que trata das falsificações. O documentário não ignora esse aspecto e chega a incluir o depoimento de um falsificador, o que pode parecer deslocado, mas ganha sentido ao final, quando se revela o impacto dessas cópias no legado do artista. Essa escolha mostra que a obra de Modigliani continua sendo disputada, reinterpretada, e até questionada.

O filme faz um esforço concentrado para desmistificar a aparência de simplicidade do estilo de Modigliani. Argumenta-se que sua arte, que hoje é copiada e valorizada em leilões, é resultado de uma busca por valores universais expressos na economia de linhas. Em certos momentos, a dedicação em desvendar o mito se sobrepõe ao próprio fluxo do filme. Modigliani aparece como alguém que viveu entre extremos, que buscou algo que talvez nem ele soubesse nomear.

O resultado final é um registro informativo e respeitoso da produção e do legado do pintor, adequado para quem busca um panorama organizado de sua arte e biografia, oferecendo um percurso possível por essa vida que ainda desperta interesse mais de cem anos depois de sua morte.

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