
O longa-metragem “Lenin em 1918” (1939) é a segunda parte de uma duologia biográfica – iniciada por “Lenin em Outubro” (1937) – focada na figura de Vladimir Ilitch Lênin, líder da Revolução Bolchevique.
O filme cobre o turbulento período de 1918, um ano marcado pela Guerra Civil Russa, a escassez de alimentos em Petrogrado e Moscou, e a luta ideológica contra a contrarrevolução.
A narrativa centra-se nas ações de Lênin para estabilizar o poder soviético, introduzir medidas econômicas de emergência e confrontar conspirações internas, culminando na tentativa de assassinato do líder. A obra funciona essencialmente como uma peça de propaganda que visa consolidar a imagem de Lênin como um herói onisciente e abnegado, fundamental para a sobrevivência da nação.
O filme emprega uma estética grandiosa e monumental característica do Realismo Socialista tardio. A iluminação é frequentemente dramática, utilizando um forte contraste entre luz e sombra para destacar a figura de Lênin, que é invariavelmente banhada por uma luz gloriosa, muitas vezes vinda de cima ou de trás, conferindo-lhe um aspecto quase messiânico.
O uso de planos abertos e multidões em movimento é recorrente nas cenas que retratam a crise de abastecimento ou a mobilização popular, buscando transmitir a ideia de uma nação unida em torno de seu líder. Contudo, é nos planos internos e próximos que o filme exerce seu maior controle ideológico.
A câmera estabelece uma reverência formal a Lênin, utilizando ângulos ligeiramente baixos para aumentar sua estatura e autoridade. A edição, embora funcional na manutenção do ritmo narrativo, serve primariamente para vincular os eventos caóticos do país (os inimigos, a fome) à sabedoria estratégica de Lênin, que resolve os problemas a partir do centro do poder. A ausência de sutileza reflete a necessidade política de clareza e didatismo ideológico.
O roteiro apresenta Lênin como figura central, cercado por personagens que reforçam seu papel de guia político e moral. Boris Shchukin interpreta Lênin com precisão teatral. A atuação se tornou referência na cinematografia soviética, sendo repetida em outras produções da época.
Importante observar que, a atuação é menos uma performance psicológica e mais um exercício de imitação hagiográfica. Shchukin se concentra em replicar os maneirismos, a postura inclinada e o entusiasmo retórico que se tornaram cânones da representação pública de Lênin na época stalinista. A performance é eficaz em criar o ícone desejado pelo Estado, transmitindo uma imagem de calma inabalável, inteligência pragmática e afeto paternal para com o povo. Qualquer traço de dúvida ou complexidade é diligentemente evitado.
É crucial notar o papel secundário, porém ideologicamente central, de Nikolai Okhlopkov como Vassili, o fiel guarda-costas de Lênin. Vassili personifica o “novo homem soviético”: forte, resoluto e completamente devotado ao Partido e ao líder. Sua dedicação é um espelho para a audiência, reforçando a mensagem de lealdade inquestionável.
O filme inclui figuras como Stalin, interpretado por Mikheil Gelovani, que mais tarde seria removido das versões posteriores por conta das revisões históricas impostas pelas mudanças políticas. Essa oscilação revela como o cinema soviético era moldado pelas exigências do regime, com personagens sendo apagados ou realçados conforme o momento. Outros nomes do elenco, como Nikolay Cherkasov como Gorky e Vasily Markov como Dzerzhinsky, ajudam a compor o retrato de um governo cercado por lealdade e vigilância.
A tentativa de assassinato de Lênin por Fanny Kaplan é um dos pontos altos da trama. A sequência é construída com tensão e serve como momento de virada, reforçando a imagem de Lênin como alguém que resiste e retorna ao trabalho mesmo após o atentado. A recuperação do líder é mostrada com sobriedade, e o filme termina com a reafirmação de seu papel na condução do país.
A direção de Mikhail Romm se destaca por atenção aos detalhes cotidianos, na habilidade em capturar gestos e situações que dão densidade à encenação, mesmo quando o conteúdo é claramente propagandístico.
Embora o filme não seja uma fonte confiável para compreender os eventos reais de 1918, ele oferece uma leitura sobre como o regime soviético queria que Lênin fosse lembrado. A construção da figura pública se sobrepõe à complexidade histórica, e o resultado é uma obra que funciona como documento político tanto quanto cinematográfico.















