
A Memória do Cheiro das Coisas (The Scent of Things Remembered, 2025), longa-metragem dramático, coprodução Portugal e Brasil, exibido durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (2025), distribuído pela Bretz Filmes, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 30 de outubro de 2025, com classificação indicativa 12 anos e 96 minutos de duração.
O filme se passa quase todo dentro de um lar de idosos, mas o que está em jogo é muito mais amplo: o que se faz com o tempo que resta e com tudo que já passou. O diretor António Ferreira escolhe como protagonista Arménio, um ex-combatente da Guerra Colonial Portuguesa, agora com mais de 80 anos, obrigado a viver em um espaço que ele não escolheu. A chegada de Hermínia, uma cuidadora negra, altera a rotina e escancara o que ele tentou manter enterrado.
O filme não se apressa em mostrar quem ele foi, mas deixa que os traços apareçam aos poucos — no modo como fala, no que evita, no que repete. José Martins interpreta esse homem com uma secura que não pede simpatia. Ele fuma, reclama, recusa ajuda, e aos poucos revela o que o tempo fez com ele.
Hermínia, vivida por Mina Andala, não tenta mudar Arménio. Ela faz o que precisa ser feito, sem se curvar às grosserias. Há uma cena em que ela contrabandeia cigarros para ele, sem dizer nada. Esse tipo de troca diz mais do que qualquer conversa. O filme se sustenta nesses momentos em que o que importa não é o que se fala.
A arquitetura do lar é fria, os corredores são longos, as janelas não se abrem. Ferreira usa isso como parte da história. O espaço parece feito para apagar quem vive ali. E é nesse lugar que Arménio precisa lidar com o que fez, com o que perdeu, com o que não quer lembrar. O título do filme remete ao olfato, mas também à memória que não se controla. O cheiro das coisas é o que resta quando tudo o mais já foi.
Há uma tentativa de redenção que pode dividir opiniões. Quando o filme se aproxima demais da ideia de que o tempo pode curar tudo, perde parte da força que vinha construindo. Arménio foi racista, misógino, violento. E o filme não esconde isso. Mas ao sugerir que a convivência com Hermínia pode levá-lo a algum tipo de transformação, corre o risco de suavizar o que não deveria ser suavizado.
Ainda assim, há mérito na forma como o filme trata da velhice. Não há idealização, nem piedade. O envelhecimento aparece como um processo que desgasta, que exige paciência, que revela o que estava escondido. E nesse sentido, “A Memória do Cheiro das Coisas” acerta ao mostrar que o fim da vida não é apenas sobre o corpo que falha, mas sobre tudo que se acumulou até ali.















