
Não Sei Viver Sem Palavras (2025), longa-metragem documental nacional, exibido durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (2025), com classificação indicativa Livre e 81 minutos de duração.
Documentário que se aproxima de Ignácio de Loyola Brandão com afeto e inquietação, mas também com certa hesitação. Dirigido por André Brandão, filho do escritor, o filme parte de uma relação pessoal que se mistura com o desejo de compreender quem é esse homem que escreveu tanto, falou tanto, e ainda parece guardar segredos.
A estrutura é fragmentada, alternando entre arquivos, entrevistas, trechos de livros e conversas entre pai e filho. Em alguns momentos, essa mistura funciona bem, especialmente quando Ignácio fala sobre suas obras com clareza e humor. Em outros, o filme parece se perder em digressões que não se conectam com o que está sendo mostrado.
Há uma tentativa de transformar o escritor em personagem, mas sem recorrer a dramatizações ou reconstruções. O foco está nas palavras, nas ideias, nas lembranças. André aparece em cena, conversa com o pai, questiona, hesita. Em uma dessas conversas, ele pergunta se é possível se distanciar da figura paterna. Ignácio responde com uma frase seca: “Não sei. Acho que eu que tenho de responder isso.” Essa troca resume bem o tom do filme — há uma busca, mas também um limite.
A montagem alterna entre momentos mais soltos e outros mais rígidos. Quando se debruça sobre livros como “Zero”, há uma tentativa de entender as escolhas formais do autor, mesmo que nem ele consiga explicá-las completamente. Já quando o filme se apoia em reflexões mais genéricas, perde ritmo e se aproxima de algo que lembra uma sessão de terapia filmada. Isso não compromete o todo, mas cria uma oscilação que pode cansar.
Ignácio, aos 89 anos, aparece lúcido, bem-humorado, e com uma disposição rara para falar sobre passado e presente. Ele comenta sobre Araraquara, sobre o cinema, sobre o medo, sobre o autoritarismo. E é nesses momentos que o filme ganha fôlego. Não por causa das respostas, mas pela forma como ele encara as perguntas.
Não há saudosismo, nem tentativa de transformar Ignácio em monumento. O que se vê é um homem que continua pensando, escrevendo, e tentando entender o mundo — e um filho que tenta entender o pai.
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