O Diário de Pilar na Amazônia (por Casal Doug Kelly)

O Diário de Pilar na Amazônia (2025), longa-metragem nacional infantil, exibido durante a 2ª Mostrinha da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (2025), com classificação indicativa Livre e 90 minutos de duração.

Adaptação do livro homônimo, escrito por Flávia Lins e Silva, que aposta na aventura como porta de entrada para falar de temas que costumam ficar de fora do cinema infantil.

A história começa com Pilar, Breno e o gato Samba formando uma sociedade secreta para investigar mistérios. Eles acabam transportados para o coração da Amazônia por meio de uma rede mágica, onde conhecem Bira (Thúlio Naad) e Maiara (Sophia Ataíde), uma menina ribeirinha que perdeu sua comunidade. A partir daí, o grupo embarca em uma jornada para ajudá-la a reencontrar a família e enfrentar ameaças que envolvem o desmatamento da floresta.

O filme mistura elementos do folclore brasileiro com situações que remetem a problemas reais. A presença de seres encantados como a Iara e o uso de magia não servem apenas como enfeite — eles fazem parte da lógica do universo da protagonista, que já passou por outras aventuras em livros ambientados em lugares como Grécia, Egito e China. Aqui, o foco é a Amazônia, e o roteiro tenta equilibrar o tom leve com questões mais sérias, como a destruição ambiental e o impacto sobre comunidades locais.

O elenco infantil funciona bem, com destaque para Lina Flor como Pilar e Miguel Soares como Breno. Os dois têm química e conseguem manter o ritmo mesmo quando o texto exige mais do que apenas reações. Os adultos, como Nanda Costa e Marcelo Adnet, aparecem em papéis que ajudam a dar corpo à história, mas sem roubar a cena (ainda que brilhem em determinados momentos). Há também uma participação de atores locais, o que dá ao filme um toque mais próximo da realidade que ele tenta retratar.

A direção de Eduardo Vaisman e Rodrigo Van Der Put não tenta sofisticar demais. O foco está na clareza da ação e na fluidez das cenas. Algumas sequências são mais agitadas, outras mais contemplativas, mas o filme mantém um tom constante que favorece o público infantil. A trilha sonora e os efeitos visuais são usados com moderação, sem tentar transformar tudo em espetáculo.

O projeto tem o selo da Disney via Star Original Productions, o que ajuda na distribuição e na estrutura de produção. Mas o que se destaca é o esforço em adaptar uma obra literária brasileira de sucesso para o cinema sem perder o espírito original. A autora Flávia Lins e Silva participa do roteiro, o que garante uma certa fidelidade ao universo da personagem.

“O Diário de Pilar na Amazônia” não tenta ser mais do que é: uma aventura com propósito. E nesse sentido, entrega uma história que pode entreter e, ao mesmo tempo, abrir espaço para conversas sobre o que está acontecendo na floresta — sem precisar recorrer a lições de moral ou discursos prontos.

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