
Kontinental ‘25 (2025), longa-metragem romeno de comédia dramática, exibido durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (2025), com classificação indicativa 16 anos e 109 minutos de duração.
Trata-se de um filme que começa com uma situação banal e termina em um redemoinho de conversas que parecem não levar a lugar nenhum — e talvez esse seja o ponto.
O diretor Radu Jude escolhe como protagonista uma oficial de justiça chamada Orsolya, vivida por Eszter Tompa, que precisa despejar um homem sem-teto de um porão em Cluj. O homem, Ion, aceita sair, pede um tempo para arrumar suas coisas e, pouco depois, morre. A partir daí, o filme se transforma em uma sequência de diálogos em que Orsolya tenta lidar com o que aconteceu.
Ela fala com colegas, amigos, familiares, um ex-aluno, um padre, e até com um jovem que idolatra sua postura profissional. Cada conversa gira em torno da culpa, da responsabilidade, da tentativa de entender se ela poderia ter feito algo diferente.
As cenas são longas, muitas vezes filmadas com câmera estática, e o ritmo é quebrado apenas pelas interrupções do cotidiano. Há uma sensação de que Jude está mais interessado em deixar os personagens falarem do que em chegar a alguma conclusão. E isso pode cansar. Há quem pode dizer que o filme perde fôlego na metade, que se repete, que se estende mais do que deveria. Mas também há quem veja nisso uma escolha coerente com o tema: a culpa não tem fim, e as tentativas de lidar com ela são sempre imperfeitas.
O humor aparece em momentos inesperados. Orsolya tenta doar dinheiro para causas políticas, mas tem medo de mostrar o rosto online. Um padre transforma sua história em sermão. Um ex-aluno a vê como uma espécie de heroína. E, no meio disso tudo, ela cancela uma viagem à Grécia e se afunda em uma espécie de autoanálise que não resolve nada.
O diretor opta por mostrar uma mulher tentando se convencer de que não é culpada, enquanto tudo ao redor parece dizer o contrário. É uma das abordagens mais diretas do diretor, que costuma ser mais caótico em seus projetos. Aqui, ele mantém o foco, mesmo que o foco seja justamente a dispersão.
“Kontinental ‘25” não é fácil de assistir. Mas há algo curioso em ver um filme que se recusa a dar respostas, que se alimenta da dúvida, que transforma uma tragédia pequena em uma espiral de questionamentos. E talvez o que mais fique seja isso: a sensação de que, diante de certas situações, tudo o que resta é falar — mesmo que ninguém saiba o que dizer.















